GEORGE HARDDY
Há - desde sempre e para sempre - uma natureza
dada. Independente de nós, em singular liberdade, ela estabelece
sua perfeita composição, guiada por um destino desconhecido
e possível ao nosso precário entendimento pela experiência
da arte. É apenas pelo exercício da fantasia que nos
aproximamos dos mistérios de sua origem. Natureza que nutre
e garante, sem cobranças, a existência dos humanos.
Se refazendo ao longo das eras, gerando sombras em todas as estações,
caminhando para os vastos oceanos - evaporando em sal e caindo em
açúcar - circulando em transparentes ventos, acolhendo
ninhos e outros nascimentos, ela é natureza a nós presenteada
e somente pela sensibilidade podemos travar com ela um diálogo
sem palavras, suspeitando seus segredos na incompletude de nós
mesmos.
Alguns, privilegiados por perscrutar os incômodos do cosmo,
podem conversar com os silêncios dessa inquietante natureza,
ao tentar adivinhar o que persiste de obscuro em seus percursos. Mas,
para tanto, há que se restar atento pois, sutis são
seus movimentos, intensas as suas cores e mansas as esferas de sua
melodia.
George Harddy, com um olhar capaz de ultrapassar as cascas, ao mergulhar
em seu imaginário, busca dar outros sentidos à natureza
que nos for presenteada. Intrigado com o que existe de milagre por
trás desses elementos que parecem ter nascido com o mundo e
assistiram o nascimento do humano, ele recorre aos seus predicados
estéticos para dar sentido à sua poesia. E assim fazendo,
o artista nos convida a nos assustarmos diante desse gratuito espetáculo
da natureza, ao nos reapresentá-la recriada e plena em significantes.
Se são pedras, o artista busca aproximá-las, organizando-as
em diferentes equilíbrios e formas, como que anunciando a elas,
com o carinho do silêncio das mãos, que uma indispensável
conversa entre o existente e o ainda por existir é possível.
Atento aos restos de raízes e troncos George Harddy interfere
de maneira dúctil, extasiado diante daquilo que a idade do
tempo esculpiu ou poliu rigorosamente. Seu espanto diante da história
da natureza e seus meandros faz-se responsável por uma obra
em que a sutileza só se revela aos olhares mais atentos. Ele
reconhece que para manipular a concretude que mora no já criado
é preciso milagrosos cuidados. Ao dar novas e sensíveis
sentenças à natureza dada, investigando os múltiplos
trilhos da beleza, é que também o artista, em pauta,
inaugura uma nova linguagem de expressão. Sua construção
estranha e sedutora exige do olhar do fruidor outras pontuações.
Ao fundar um assunto, a partir de sua percepção operadora,
tornam-se necessárias outras reflexões, mais e mais
renovadas. Sua arte rompe exageradamente com as palavras que procuram
conceituá-la. Diante de sua obra todas as palavras já
estão por demais gastas e só cabe aos apreciadores a
descoberta de mais mistério entre a criação e
a criatura. Suas esculturas, por não esgotar o mistério,
inauguram outras indagações e nos remete à ternura
das dúvidas.
Bartolomeu Campos de Queirós
O texto acima foi publicado no livro
George Harddy
Circuito Atelier, Belo Horizonte, Editora C/Arte, 2006, p. 3 e 4.
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