Depoimento

De que maneira você vê a influência da cultura japonesa, indiana e indígena no seu trabalho artístico?

A japonesa, pela sua elegância e harmonia, que passei a admirar quando era judoca. A indiana, pela sua visão cósmica, e a indígena pela sua simplicidade e respeito pela natureza, onde nada é feito por acaso, tudo possui um significado. Sempre me impressionou, por exemplo, quando estou na beira de um rio, depois de me despir das minhas vaidades, passo a conversar com a natureza e em seguida começo a achar e retirar, com o devido respeito, pedras com o formato que quero encontrar em uma proporção incrível. Digo: “Quero encontrar pedras com a semelhança de um rosto” e elas se destacam uma das outras, de alguma forma que percebo. Em outra circunstância, descubro uma pedra aqui que se encaixa com outra que recolhi em um lugar muito distante. Sempre pensei que o Universo é um grande cérebro que responde ao anseio humano. Um cientista formula o “Buraco Negro” e tempos depois o tal “Buraco Negro” é constatado cientificamente, levantamos a teoria que possa existir um “Mundo Espiralado” e é averiguado quase em seguida um mundo espiralado. Então eu acho que tudo funciona como um computador, tudo está interligado, existe sempre uma razão.

Seu processo de criação começa por uma idéia ou ocorre de maneira mais intuitiva, no contato direto com os materiais?

Muitas vezes ocorre pela minha maneira particular de observar a natureza quando uso de minha intuição, noutras, a imagem aparece em um sonho. As idéias podem ir fermentando e mais dia menos dia eu encontro aquilo que procuro. Muitas vezes trombo exatamente com a peça imaginada. As idéias, depois de formuladas, vão acontecendo. O Ailton me ensinou isso, como os índios descobrem que aquela planta cura é assim, indagando para a natureza que sempre responde para aqueles que sabem ouvir. A natureza quer participar e ser cúmplice da vida humana. Esse é um conhecimento bem simples que os civilizados desaprenderam de utilizar com o passar dos tempos. Por este motivo, ao passar a entender a cumplicidade que deve existir entre o homem e a natureza, isso simplificou minha relação com os materiais que uso e com meu trabalho. Porque só tento, e proponho manter ao máximo a dignidade da pedra, do bambu, da água e da terra. Eu quero mostrar: “Olha como tem poesia nessa coisa. Como elas demoraram tanto a se acasalar”. Não é meu feitio martelar, cortar ou remendar sem sentido, elas já são tão magníficas sendo pedras. Como uma coisa tão pura como a pedra, você vai rachar, vai quebrar? Não pretendo também sair fazendo denúncias e bradar: “Vejam como eles desmataram e devastaram a natureza”, quero ser contundente ao mostrar: “Observem bem como a simplicidade da pedra rolada, nua e pura, é poderosa”. Eu tropeço nas pedras quase sempre. Quando encontro as pedras mais interessantes passa um gavião ou uma outra pedra rola como se dissesse: “hei, estou aqui!”. A conversa é mais ou menos essa: “qual de vocês quer virar escultura, deixar de ser simplesmente pedra?”. E elas se prontificam. É um acontecimento que pode parecer estranho, mas também não imagino outra maneira de tratá-las.

Texto extraído do depoimento do artista, publicado no livro George Harddy
Circuito Atelier, Belo Horizonte, Editora C/Arte, 2006, p. 30 a 32.
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Entrevista realizada em outubro de 2006 tendo como interlocutora
Jacqueline Prado de Souza.