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[ MAPA DAS BIENAIS AMERICANAS ]
Apresentamos
neste texto um breve mapeamento das bienais que acontecem no continente
americano. Este estudo norteou algumas das discussões ocorridas no Fórum Arte das Américas
realizado em Belo Horizonte entre os dias 7 e 9 de novembro de
2001.
Bienal
Internacional de São Paulo:
Fundada,
em 1951, pelos dirigentes do Museu de Arte Moderna de São Paulo, contando com o patrocínio do empresário Francisco Matarazzo Sobrinho, instalou-se inicialmente no Trianon e atualmente localiza-se no Parque do Ibirapuera, na capital paulista. A História das Bienais de São Paulo, apresentada no livro da jornalista Leonor Amarante, demonstra claramente que este evento, em suas diversificadas e controvertidas edições, é a mais antiga e constante exposição internacional das Américas, tornando-se a manifestação brasileira mais respeitada e conhecida no exterior. "Quando Francisco Matarazzo Sobrinho criou a Bienal de São Paulo, apesar de toda a vaidade que o movia, acreditava no poder aglutinador e transformador da arte"(1) . A última edição, a 24a, realizada em 1998, foi promovida pela Fundação Bienal de São Paulo, presidida por Paulo Landmann. Os curadores Paulo Herkenhoff e Adriano Pedrosa objetivavam trabalhar o tema da antropofagia e histórias de canibalismos, uma vez entendido que a antropofagia foi um dos movimentos mais densos da história da arte no Brasil. Focalizando a arte brasileira, a Bienal foi dividida em um núcleo histórico e um contemporâneo. Já as representações internacionais integraram o núcleo Roteiros, Roteiros, Roteiros..., elaborando 7 percursos por 7 regiões do mundo, através do olhar de 11 curadores. Cada curador selecionou um artista, representante de cada país, que estivesse produzindo trabalhos em consonância com a temática antropofágica. Houve também uma seção dedicada a Web Art, com a curadoria de Ricardo Ribeboim, artista e diretor do Instituto Itaú Cultural. Esta possibilitou uma série de questionamentos da arte moderna, como a discussão da noção de originalidade, uma vez que uma obra criada na rede é infinitamente reprodutível, permitindo a construção de uma peça coletiva com a interatividade dos internautas; bem como a estruturação do trabalho pensada como obra em processo, onde os artistas, os curadores e os visitantes interagem na criação da obra de arte. O resultado da 24a Bienal de São Paulo foi uma grande festa antropofágica, reunindo os artistas brasileiros e estrangeiros numa proposta única
de troca cultural.
Em 2001 comemorou-se os 50 anos da Bienal de São Paulo com uma mostra em homenagem a Ciccillo Matarazo. Esta foi dividida em dois núcleos, o primeiro resgatou a história da Bienal no contexto cultural do século XX e o segundo focalizou a rede de tensão na arte contemporânea. Este último propunha agir sobre o presente, numa ação prospectiva, evidenciando o tema da cidade e de seu cotidiano, "expressão máxima da contemporaneidade, que se apresenta ao olhar atento, inquieto e questionador do artista, como uma rede de tensão a ser explorada crítica e criativamente"(2) . Com curadoria de Maria Alice Milliet, Daniela Bousso, Pedro Cury e Marili Brandão, foram convidados 34 jovens artistas, arquitetos e designers, entre eles Éder Santos, Rosângela Rennó,
Ana Maria Tavares e Shirley Paes Leme.
Bienal de San Juan da gravura Latinoamericana e do Caribe:
A
Bienal de Gravura de San Juan, em Porto Rico, fundada em 1970, é promovida pelo Instituto de Cultura Portoriquenho com o apoio do Governo Federal. Considerando a excelente tradição artística dos países da América Latina e do Caribe, o evento propõe organizar uma mostra dos trabalhos de artes gráficas (incluindo todas as modalidades de gravuras e estampas), visando discutir sua importância e torná-la visível no circuito cultural do hemisfério americano. A primeira edição aconteceu no Convento dos Dominicanos, mas a partir de 1984 foi transferida para o Edifício do Arsenal da Marinha em San Juan. Desde então, esta Bienal tem propiciado o intercâmbio cultural entre os gravadores da América Latina e a discussão da linguagem da gravura em interface com outras linguagens visuais. Nesta última edição, a XII Bienal, realizada em 2000, discutiu-se a gravura tradicional e a arte digital. Os artistas homenageados foram Rafael Rivera Rosa (Porto Rico), José Rosa (Porto Rico), Sergio Gonzalez Torner (Chile) e Arthur Luiz Piza (Brasil). Na ocasião realizou-se no Quenepón, onde funciona o Centro de Estudos Avançados de Porto Rico, um simpósio que discutiu a questão da gravura no contexto das novas mídias,
focalizando a arte digital.
Bienal Iberoamericana de Arte:
Desde
1978 vem ocorrendo na cidade do México a Bienal Iberoamericana de Arte, contemplando os artistas provenientes dos países de língua portuguesa e espanhola. Estas realizaram-se no Palácio de Belas Artes e foram promovidas pelo Instituto Cultural Domecq com o apoio do Conselho Nacional de Cultura e o Instituto Nacional de Belas Artes. Cada edição selecionou uma técnica ou tema como eixo de apresentação, a exemplo da X Bienal, que foi dedicada à gravura e homenageou Francisco Goya, em comemoração aos 250 anos do mestre espanhol. A proposta visava fazer uma releitura de Goya por todos os participantes da mostra. Nesta edição verificamos uma homenagem especial à artista Fayga Ostrower, o primeiro prêmio oferecido a Arlindo Daibert e a participação
de Rubem Grilo e Liliane Dardot na mostra (3).
A partir de 1997, observamos a articulação da Bienal Ibero-americana em Lima, no Peru, resultado da escolha da cidade como Patrimônio Universal da Humanidade e Praça Maior da cultura ibero-americana. A primeira edição foi promovida pelo Centro de Artes Visuais da Municipalidade Metropolitana de Lima, com o patrocínio da empresa Bellsouth. Focalizou o artesanato e o cinema peruano, com uma mostra de estandartes e uma homenagem à Ana Maccagno, escultora, professora e coordenadora dos festivais de arte do Peru. Participaram da primeira Bienal os artistas brasileiros Paulo Climachauska e Lina Kim, e da segunda versão o artista José Bento.
Bienal de Havana:
A
Bienal de Havana, promovida pelo Centro de Arte Contemporânea Wifredo Lam com o patrocínio do Ministério de Cultura de Cuba, foi criada em 1984 como um espaço de discussão, confrontação e difusão da arte da América Latina e do Caribe. A partir da segunda edição (1986) ampliou-se para os países do terceiro mundo localizados na Ásia, África, Oriente Médio e Oceania. A Bienal de Havana abrange todas as expressões visuais do universo cultural do terceiro mundo (artes plásticas, artesanato e arquitetura) e congrega artistas, críticos, curadores, historiadores, galeristas, diretores de museus e professores de todo o mundo. A partir da terceira edição (1989) esta Bienal estruturou as exposições, oficinas de criação e os colóquios em torno da discussão de um tema central: tradição e contemporaneidade; desafios da colonização; arte, sociedade e reflexão; indivíduo e memória. No ano 2000, realizou-se a VII Bienal de Havana, com a curadoria de Nelson Herrera Ysla, propondo como eixo de reflexão a comunicação e o diálogo entre os seres humanos diante dos projetos econômicos globalizantes e o ressurgimento das diferenças étnicas, religiosas e culturais nas comunidades e países que se encontram no limiar do terceiro milênio. Discutiu-se as possibilidades comunicativas entre o artista, o público, a comunidade e a cidade, focalizando o papel da arquitetura como o marco físico ideal para o convívio humano. Reservaram um espaço especial para a apresentação da arte cubana, dividida em um Núcleo Histórico e um Núcleo de Jovens Artistas, mas houve abertura também para os jovens artistas que vivem à margem do primeiro mundo, entre eles os brasileiros Rochelle Costi, Diana Domínguez, Jac Leiner, Shirley Paes Leme, Arthur Omar, Ana Maria Tavares, Mônica Nador, Ricardo Ribenboim, Jorge Barreto e Luiz Zerbini. Os artistas ocuparam as instituições governamentais, os museus, galerias, e realizaram intervenções nas ruas e praças da cidade. Na ocasião foi organizado um Encontro de Teoria e Crítica, que discutiu a questão da comunicação na arte contemporânea e das novas linguagens artísticas no mundo globalizado e multicultural. A tônica das Bienais de Havana tem sido a crítica ao modelo hegemônico vigente e a discussão de propostas alternativas para a arte e a cultura visual nos países periféricos.
Bienal Internacional de Pintura de Cuenca:
A
Bienal de Cuenca, no Equador, fundada em 1986, é um projeto Cultural da Cidade de Cuenca, que visa a abertura de um espaço específico para as experiências e reflexões em torno da pintura na América Latina, Caribe e América do Norte, neste caso, focalizando a recuperação da pintura indígena nos EUA. Cada versão desta Bienal discutiu um tema específico em torno desta técnica: a questão da pintura frente a outras manifestações de artes visuais; a presença das formas ancestrais da pintura popular e indígena na arte americana; a diversidade cultural na pintura americana; o rastreamento do novo na pintura continental; as múltiplas tendências da arte americana do final do século. A partir da terceira edição, consolidou-se como um espaço de discussão da pintura no continente americano, envolvendo a presença de artistas e críticos importantes. Na VI Bienal, realizada em 1998 e organizada em torno do tema - América: vidas, corpos e histórias - discutiu-se a pintura na pós-modernidade, enquanto espaço onde encontram-se os múltiplos relatos de uma nova figuração na América Latina. Representaram o Brasil nesta Bienal os artistas André Burian, João Câmara Filho, Flávio
Carvalho, Alex Cerveney, Vera Chaves, Anna Bella Geiger, Karin
Lambrecht, Osmar Pinheiro e Emanuel Nassar.
Bienal
Internacional de Santa Fé:
A
Bienal de Santa Fé é uma promoção de Artes Visuais da cidade de Santa Fé, localizada no estado de Novo México, nos Estados Unidos. A primeira edição ocorreu, em 1995, com o objetivo de apresentar a arte contemporânea regional, nacional e internacional no Estado do Novo México, visando a discussão de temas atuais. Cada Bienal foi organizada em torno de um tema: Longing and belonging, abrangendo a arte desde o mais distante país até a arte local; A Arte na época do final do milênio e Buscando um Lugar. A terceira edição, realizada em 1999, com a curadoria da espanhola Rosa Martínez, apresentou as obras de 30 artistas de várias gerações e de todo o mundo, incluindo as brasileiras Lygia Clark e Rivane Neuenschwander. As propostas visavam discutir a questão do lugar, do território, como um estado de espírito que possibilita a relação entre os seres humanos e o entorno. A discussão focalizava a arte enquanto construção de múltiplas relações com a realidade, incluindo a ciência, o ativismo político, a exploração psíquica, os limites do público e do privado, os espaços das minorias, as identidades culturais, o lugar do corpo e das novas tecnologias. As propostas da última Bienal de Santa Fé, realizada em 2001, com curadoria de Dave Hickey, focalizou o espaço da arte contemporânea,
contemplando prioritariamente os artistas norte americanos - Kenneth
Anger, Jeff Burton, Ellsworth Kelly, Ed Ruscha, entre outros -
incluindo o latino-americano Jesus Rafael Soto (4).
Bienal de Artes Visuais do Mercosul:
A
Bienal do Mercosul, inaugurada em 1997, na cidade de Porto Alegre, é promovida pela Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, presidida pelo empresário e colecionador de arte Justo Werlang. Tem como objetivo fomentar a integração cultural do mercosul propiciando a visibilidade internacional das expressões artísticas dos países do Cone Sul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia); familiarizar o público com as diversas tendências e técnicas artísticas, ocupando os espaços públicos com obras e projetos de artistas importantes; e promover a cidade de Porto Alegre através de um evento de projeção internacional. O foco inicial partiu das relações comerciais e políticas do Mercosul e da necessidade de expandi-las para as relações culturais, artísticas, educacionais e sociais. A primeira Bienal do Mercosul teve o projeto curatorial do crítico Frederico Morais que propunha a tarefa urgente de reescrever a história da arte a partir de um ponto de vista latino-americano, contrapondo à visão dominante euro-americana. O objetivo central se desdobrou em diversas exposições, realizadas nos museus, centros culturais e galerias de arte de Porto Alegre; em intervenções nos espaços públicos da cidade e em seminários e cursos. As exposições e intervenções focalizaram as vertentes construtivas, políticas e fantásticas presentes na arte latino-americana, contemplando artistas de renome tais como: Amilcar de Castro, Franz Weissmann, Jesus Soto, Xul Solar, Lúcio Fontana, Lygia Clark, Hélio Oiticica, João Câmara, Cildo Meirelles, entre outros. Os seminários focalizaram a discussão dos temas: Utopias Latino-americanas, A América vista da Europa e dos Estados Unidos e Arte, Educação e Comunidade. Foram organizados também vários eventos sociais nos locais das mostras e ações pedagógicas interativas entre o público e os artistas. O projeto desta Bienal foi desenvolvido por um Curador Geral e vários curadores estrangeiros: Irma Arestizábal (Argentina); Pedro Querejazu (Bolívia); Justo Pastor Mellado (Chile); Ticio Escobar (Paraguai); Angel Kalenberg (Uruguai) e Roberto Guevara (Venezuela- Representante convidado da Bienal). Já a segunda edição teve a curadoria geral de Fábio Magalhães, que a dividiu com a curadora Leonor Amarante, responsáveis pelas salas especiais dedicadas a Iberê Camargo e a Picasso, Cubismo e América Latina. Foram eles também responsáveis pela apresentação de artistas contemporâneos da América Latina, tais como: Tunga, Nelson Felix e Shirley Paes Leme (brasileiros), Alejandra Wolf Rojas e Gonzalio Diaz (chilenos), Guilhermo Quinteros Rojas (Colombiano); Nora Aslan (argentina), entre outros. A segunda edição focalizou, ainda, a questão da arte e tecnologia, com as mostras Júlio Le Parc, o precursor da arte cinética na América Latina, coordenada por Sheila Leirner, e Arte e Tecnologia, focalizando as zonas de interação da ciberarte, com a curadoria de Diana Domingues. Na mesma ocasião foi realizado em Porto Alegre o Simpósio da Associação Brasileira de Críticos de Arte, coordenado pelo crítico José Roberto Teixeira Leite, contando com a participação de críticos latino-americanos e do francês
Pierre Restany (5).
Concluindo este breve relato, pensamos que as bienais internacionais do continente
americano apresentam recortes diferenciados, desde o mais abrangente, a
exemplo da Bienal de São Paulo, até o mais específico como a Bienal de San Juan da Gravura Latino-americana. Entretanto, verificamos que as bienais propiciam o diálogo e o intercâmbio cultural entre os países, dinamizam o debate e a produção da arte contemporânea, e contribuem para o enriquecimento da cultura artística
nas cidades onde se localizam. (6)
Marília Andrés
Ribeiro (7)
Notas:
(1) Prefácio de Amarante para o livro: As Bienais de São Paulo/1951 a 1987, São
Paulo, Projeto, 1989.
(2) Carlos Bratke. Um olhar para frente. Catálogo: Rede de Tensão. Bienal 50 anos. 24 de maio a 29 de julho de 2001. Ibirapuera, São
Paulo.
(3) Verificar Catálogo da X Bienal Iberoamericana de Arte: Grabado Iberoamericano, Instituto Cultural Domecq, México,
1996.
(4) Pesquisa realizada na Internet no site de busca Universes in Universe.
(5) Verificar Catálogos da Bienal Mercosul e Jornal da Crítica, n.8, jan./fev./mar./2000, publicação
da ABCA.
(6) O texto foi publicado no Caderno Pensar do Jornal Estado de Minas em 3 de novembro de 2001, pp. 2-3.
(7) A autora é doutora em História da Arte, coordenadora de projetos da C/Arte Projetos Culturais, participa do Comitê Brasileiro de História da Arte e da Associação Brasileira de Críticos
de Arte.
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