[ Revista do Instituto Arte das Américas ]

Maria Helena Andrés

Em 2001, no despontar do novo milênio, organizou-se em Belo Horizonte, o Instituto Arte das Américas, com o objetivo de estudar a arte dos diversos países que compõem o continente americano de norte a sul. Tendo à frente o casal de historiadores Fernando Pedro da Silva e Marília Andrés Ribeiro, o Instituto promoveu um Fórum que reuniu artistas, críticos, professores, historiadores, ecologistas e educadores, com o objetivo de estudar, defender e estabelecer conceitos sobre a situação da arte e da cultura no mundo globalizado.

A primeira revista do Instituto foi lançada em 2003, reunindo 12 capítulos onde estão registrados os temas - intercâmbios culturais, bienais, arte e política e arquiteturas -, permitindo ao leitor a reflexão sobre as diversas culturas americanas e relembrando a célebre indagação: “O que somos, de onde viemos, para onde vamos?” Os textos, assinados por grandes teóricos da arte, nos ajudam a obter respostas e possibilitam novas indagações.

O editorial, escrito pelo jornalista Walter Sebastião, traz um resumo das iniciativas do Instituto, desde a sua criação, em setembro de 2001, até as propostas de um novo encontro em novembro de 2003, onde se discutirá a questão da arte e do ensino.

Intercâmbios culturais

Entre o global e o universal

O primeiro capítulo da revista transcreve um artigo do historiador Fernando Cocchiarale, atual diretor do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, onde ele faz uma análise do mundo globalizado e das dificuldades enfrentadas pelos países latino-americanos no intercâmbio cultural. Sua proposta é encaminhada para uma ação conjunta no sentido da recusar quaisquer rótulos que nos reduzem a um “outro exótico”, “mais toscos, mais primitivos e mais ingênuos” para o primeiro mundo. Cocchiarale mostra a importância das mostras de coleções públicas e privadas, da publicação de livros, revistas e outras mídias e de eventos culturais como as Bienais do Mercosul, de São Paulo e Havana. Essas iniciativas favorecem a troca de informações entre todos os países das Américas e os intercâmbios culturais.

As tramas da globalização

Icleia Borsa Cattani, historiadora e crítica de arte, estuda os efeitos da globalização sobre os países do terceiro mundo e a concentração de riquezas em poucas mãos. “A globalização neoliberal tenta impor-se, ideologicamente, como único modelo. No século XX organizaram-se atividades de resistência e crítica através dos movimentos de vanguarda, mas, apesar disto, disseminou-se amplamente a adesão ao modelo econômico dominante.” Icleia critica o modelo neoliberal imposto pelos países ricos, que se estende de forma injusta sobre os países da América Latina: “Aos pobres, os territórios circunscritos, aos ricos, o mundo...” Cattani propõe um intercâmbio que assuma outros critérios que não apenas os da novidade ou da contemporaneidade, mas que, ao mesmo tempo, não relegue o diferente às categorias consideradas menores de “popular” ou de “étnico”.

Bienais

Emergência e limites das Bienais

Aracy Amaral, historiadora e crítica de arte, escrevendo sobre as bienais, faz um comentário sobre a emergência da Bienal de São Paulo, a influência que ela exerceu sobre os artistas e as polêmicas surgidas na época de sua criação. Citando Mário Pedrosa, “a Bienal trouxe uma verdadeira revisão de valores, pois estávamos, em 1951, atrasados 30 anos no que respeita às tendências artísticas.” Hoje, segundo Aracy Amaral, a Bienal de São Paulo é, indiscutivelmente um evento internacional, aguardado tanto como a Bienal de Veneza ou a Documenta de Kassel. “O Brasil é um país rico em artistas (...). No entanto, por insegurança de apresentar novos nomes, os curadores insistem sempre nos mesmos artistas para representar o país em eventos internacionais. A autora comenta a não participação de artistas nos debates, dialogando com os críticos. “Em qualquer parte do mundo o artista somente se interessa por seu próprio trabalho. Cabe aos críticos, teóricos e historiadores, a estes sim, o olhar interessado pelo conjunto ou pelos artistas em geral”.

XXV Bienal de São Paulo

Alfons Hug, especialista em literatura comparada e estudos culturais, tendo sido diretor do Instituto Goethe em Brasília, Caracas e Moscou, foi o curador da XXV Bienal de São Paulo, cujo tema foi a discussão sobre as metrópoles contemporâneas e a construção de uma cidade utópica. “Num universo artístico multipolar não há mais espaço para o pensamento hegemônico e eurocêntrico. Mais do que em qualquer momento do passado, importa mostrar que, numa época na qual as disparidades econômicas e sociais entre o Norte e o Sul estão aumentando, fica reservada aos artistas a tarefa de unir novamente os dois hemisférios.” Atualmente a arte se defronta com os excessos da vida cotidiana que reserva para a maioria das pessoas mais miséria do que felicidade, mais violência do que paz. Na XXV Bienal deu-se ênfase aos contrastes urbanos entre a riqueza e a pobreza. As indagações nos levam à proposta da Bienal de Arquitetura de Veneza do ano 2000: “menos estética, mais ética”.

Bienal do Mercosul

Leonor Amarante, jornalista, editora e curadora adjunta da II Bienal do Mercosul, afirma que toda Bienal deveria ser um ato experimental. Os trabalhos expostos naquela Bienal não necessariamente visam o mercado, mas convivem com mudanças rápidas e efêmeras. O conceito “arte por toda parte”, slogan que liga a cidade à Bienal, traduz o desejo de descentralizar a exposição e atingir todo tipo de público. Em Porto Alegre, às margens do Rio Guaíba, foi construída uma “cidade” branca, serial e racionalista, composta de cinqüenta e um containers, que no conjunto já constituíam uma obra de arte. A geometria exterior e sua racionalidade recebia a intervenção diferenciada de cada artista, estabelecendo um rico jogo de significados. Nos últimos anos as performances voltam às exposições e hoje um número significativo de artistas se dedica exclusivamente a essa manifestação de arte. Durante a primeira semana da Bienal, o Hospital Psiquiátrico São Pedro, um belo edifício do começo do século, parcialmente desativado e deteriorado, transformou-se em palco para as performances. Amarante salienta que a “Bienal, apesar dos opositores, é ainda a manifestação artística mais eficiente para melhorar a circulação da produção da América Latina.”

Bienal de Havana

Nelson Herrera Ysla, arquiteto e curador da VII Bienal de Havana, compara as bienais às catedrais barrocas ou medievais. “Sempre considerei que as catedrais medievais, renascentistas e barrocas são grandes instalações da história da humanidade e que podemos ver ali escultura, desenho, pintura, mosaico e música. As bienais poderiam contribuir para este intento, quebrando esta fragmentação originada, como todos sabemos, há mais de trezentos anos, quando foram criadas as primeiras salas de arte e quando esta começou a se separar da vida cotidiana e dos espaços urbanos onde sempre esteve inserida.” Herrera propõe para a próxima Bienal de Havana, um Fórum que não se limite apenas aos curadores e críticos, onde os artistas possam expressar os seus pontos de vista, “onde eles possam ser atores e não o objeto utilizado pelo curador para exibir seu próprio discurso. Que o artista seja um sujeito atuante, e não um objeto da Bienal.” Herrera propõe também a integração de todas as artes. “Incluiremos não só as artes visuais, mas também outras expressões: artes cênicas, cinema, expressões de dança, de tal modo que possamos integrar as artes visuais em todo o espectro da cultura visual e do ambiente cultural contemporâneo.”

Arte e Política

Apropiacões e entrecuzamentos na era da globalização

Nelson Herrera Ysla, em outro texto dessa Revista, estuda a globalização e sua influência sobre a arte: “... en el terreno del arte, yo prefiro hablar de apropiacion y entrecruzamientos, los cuales tienen una larga historia...”. Hoje, as bienais, trienais, salões regionais e mega exposições representam a via que traz o conceito do local e do universal. Com raras exceções aparecem nas volumosas “Histórias da Arte” o estudo de outras civilizações e culturas não ocidentais como as astecas, maias e incas, ou africanas, árabes e asiáticas. Herrera estuda a imigração na Europa e nos Estados Unidos, introduzindo mudanças profundas na arte e no comportamento das pessoas e considera um benefício essa integração. Assim como o cenário artístico do Norte se transforma com a incorporação de artistas e comunidades do Sul, também o Sul recebe a influência do Norte graças aos artistas que trabalham e vivem nessas áreas. Considera, ainda, o hibridismo e a assimilação de culturas um fenômeno natural da contemporaneidade.

Arte e política nos Estados Unidos

Edward Sullivan, doutor em artes plásticas, professor de história da arte e diretor do Departamento de Artes Plásticas da New York University, faz uma análise sobre a arte e política nos Estados Unidos. Ele destaca a produção artística de grupos tradicionalmente marginalizados, os chamados de “sociedades do terceiro mundo”, voltados para a formação da política de arte nos Estados Unidos, Vários artistas americo-caribenhos vêm criando instalações e performances poderosas em museus, galerias e espaços alternativos. Sullivan resgata também os artistas norte-americanos, pós-sessenta, envolvidos com o tema político. Exemplifica com Andy Warhol e a famosa “Estátua da Liberdade”, de 1963, e a série “Suicídio”, que antecipa os horrores de 11 de setembro. Cita ainda Jasper Johns que foi um dos primerios a romper com o elemento sagrado da bandeira nacional americana e Leon Golub que, através da pintura, protesta contra “as realidades políticas negativas na história americana, inclusive referindo-se à intervenção dos Estados Unidos em outros países”. Ao tratar da política de negócios nos Estados Unidos o autor lembra que atualmente as artes passaram a ser o que há de menos importante tanto para o patrocínio público quanto para o privado.

Chile e Argentina: memórias da violência

Andréa Giunta, doutora em filosofia e letras e professora de história da arte da Universidade de Buenos Aires, compara as formas de expressão plástica no Chile e na Argentina nos períodos das ditaduras e nos períodos pós-ditaduras políticas. A do Chile, com o Golpe de Pinochet contra Salvador Allende, em 1973, apresentando imagens espetaculares, e a da Argentina, em 1976, que se desenvolveu nas sombras e na obscuridade. No Chile, com a eleicão do governo socialista de Allende e da Unidade Popular, a pintura mural ocupou as ruas e os espaços urbanos, mas foi esvaziada depois do golpe militar. No final dos anos setenta, os movimentos de resistência artística que propuseram a enfrentar a censura e a desmontar o discurso oficial, pensaram a mudança por meio de vídeo arte, performances, instalações, body art e land art. Na Argentina houve uma aliança entre as vanguardas artística e política no final dos anos sessenta., com os artistas atuando como atores influentes de uma mudança revolucionária, a exemplo da manifestação Tucuman Arde. A autora nos fala também sobre o esquecimento, a memória, e as leis de anistia na Argentina, que procuravam esquecer oficialmente os crimes e o horror e por um fim à necessidade do castigo para os criminosos. E diz que na Argentina a ironia era a forma de expressão artística, diferentemente do Chile, onde os temas foram referentes à cidade e à violência urbana. Ela cita, ainda, uma exposição sobre identidade, realizada no Centro Cultural Recoleta em Buenos Aires, com fotos de crianças e desaparecidos, que visava ajudar a reconhecer e identificar aquelas crianças, através de um programa político explícito. Andréa Giunta constata as diferenças culturais entre os dois países e questiona o discurso curatorial dominante, que é hegemônico e não considera as diferenças artísticas individuais e regionais.

Arquiteturas

Arquitectura e urbanismo na América Latina

Roberto Segre, professor titular da FAU/UFRJ, estuda a pós-modernidade na arquitetura, enquanto uma “crítica ao esquematismo moderno”. Analisa a abertura democrática nos países da América Latina e a derrota dos regimes totalitários, salientando o surgimento de “ uma dinâmica participativa da comunidade, tentando reverter o largo tempo de autoritarismo.” A “Ecosofia” ou a coesão comunitária e o respeito à natureza aplicadas em Montevidéu, no Uruguai, Curitiba, no Brasil e Córdoba, na Argentina, são exemplos de iniciativa positiva. O autor mostra também como a pressão dos centros metropolitanos e a dinâmica neoliberal, associada à globalização, acentuam os vínculos de dependência econômica e cultural e a assimilação acrítica dos modelos externos. O arquiteto coloca o programa “Favela-Bairro”, promovido pela Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, como uma das experiências mais importantes da década de noventa na América Latina.

América Latina : território e experiência

Carlos Antônio Leite Brandão, arquiteto, doutor em filosofia e professor da Escola de Arquitetura da UFMG, investiga a arquitetura brasileira em dois momentos de nossa história visando discutir a questão da identidade: a sociedade barroca no período colonial e o movimento modernista na formação do Brasil republicano. Começando pelo estudo da arquitetura barroca no Brasil ele se detém na análise da arquitetura barroca em Minas Gerais. “O barroco mineiro foi original e constituiu talvez a primeira manifestação de uma cultura nacional quando fomentou o diálogo e apropriou-se do alienígena.” O movimento modernista de 1922 é analisado pelo autor em seu aspecto de assimilação de culturas: “Também a matriz do nosso modernismo descendeu das linguagens formuladas no hemisfério Norte que foram intermpretadas e postas a serviço de nossos problemas e da nossa cultura. Nossa identidade é uma identificação em curso, é transespacial e transtemporal: no nosso aqui agora habitam várias dimensões. Nossa identidade permanece ainda aberta, como em nosso barroco e nosso modernismo.”

Ambientes americanos, civilizações e artes

 

Maurício Andrés Ribeiro, arquiteto e ambientalista, mostra como “as mudanças climáticas poderão, no século XXI, condicionar as questões econômicas, sociais, políticas e de segurança.” Fenômenos climáticos afetam a vida de milhões de pesoas no continente americano, secas, inundações, ciclones tropicais, terremotos que ocorrem nas Américas, bem como o buraco de ozônio desprotegem a terra em relação aos raios solares. Maurício salienta o período pre-petróleo e o pós-petróleo, mostrando alguns pontos em comum entre os dois e usando como exemplo a ìndia e a China, onde se consolidaram redes de assentamentos sustentáveis. Apontando algumas características do território americano em termos de arte e arquitetura o autor focaliza o estilo barroco. “Enquanto o barroco manifesta o horror ao vácuo, outras tradições são atraídas pelo vazio e o valorizam, como o Zen e as tradições orientais que procuram reduzir ao mínimo o consumo, o uso de objetos e portanto, o uso de recursos naturais e os impactos da atividade humana sobre a natureza. Uma estética minimalista, na qual se valoriza a redução da produção de objetos, a frugalidade e o uso do espaço, aproxima-se de uma postura ecológica.

Concluindo, essses registros, publicados na primeira Revista do Instituto Arte das Américas, constituem um roteiro inicial para a abertura de novos estudos. Torna-se importante que esse diálogo continue, abrindo caminho para novas reflexões e constituindo mais um passo para o debate sobre arte e ensino na atualidade, a ser realizado no II Fórum Arte das Américas, entre 10 e 15 de novembro, no Palácio das Artes e na FUMEC, em Belo Horizonte.

{1} Revista do Instituto Arte das Américas, volume 1, ano 1, julho/dezembro 2003.
{2} Maria Helena Andrés é artista plástica e escritora, autora do livro Os Caminhos da Arte, publicado pela Editora C/Arte, Belo Horizonte, 2000.
Esse texto foi publicado no Caderno Pensar, do Jornal Estado de Minas, 1 o de novembro de 2003, denominado “Reflexão sobre quem somos”
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