[ OUSADIAS NA ILHA ]

Manifestações artísticas contemporâneas invadem Cuba durante a 7ª Bienal de Havana.

Havana, capital da ilha de Cuba, é belíssima. E também extremamente cosmopolita. Entre dezembro e março, momento da alta temporada de turismo, que aproveita o singular inverno local - muito calor e ventos frescos - dezenas de espaços culturais da cidade são tomados por uma intensa programação de festivais e eventos, muito deles internacionais. O mais importante, neste momento, é a Bienal de Havana, uma mega exposição de artes visuais, alojadas em quase 40 endereços, a maioria na parte antiga da cidade. E, assim, o charmoso e notável conjunto de construções dos séculos XVII, XVIII, XIX vive uma atmosfera de cumplicidade com todas as ousadias da arte contemporânea.

A mostra não se preocupa em reunir estrelas do circuito internacional e defende a ampliação de espaços para os artistas e a arte do Terceiro Mundo. O resultado é uma multidão de jovens artistas (mas não só eles) com obras importantes mas praticamente desconhecidos fora (e até dentro) de seus países. É, frise-se, uma exposição de ponta, marcadamente experimental, cujo esforço é desenvolver uma investigação sobre a arte que se faz hoje. Criada em 84, a Bienal chega à 7ª edição como um dos mais importantes eventos de artes visuais das américas. "Mais perto do outro", anuncia o lema de 2000, traduzindo o grande tema da mostra: a comunicação entre os povos.

"As bienais européias/norte-americanas são muito conservadoras. Nunca se arriscam com artistas emergentes e convidam sempre os já reconhecidos. É uma opção pelo que é seguro visando a publicidade e a agradar os patrocinadores", critica Nelson Herrera Ysla, 53 anos, curador geral e diretor do Centro de Arte Contemporânea Cultual Wifredo Lam. "A Bienal de Cuba busca mostrar obras vinculadas à vida das pessoas. Convidamos artistas que expressem os problemas do contexto em que vivem porque para nós o modo como a arte expressa o social, cultural e político é muito importante. É uma bienal dos países pobres, não-industrializados, cuja arte tem tanta força como a do Primeiro Mundo", afirma.

 

Profissão artista

Havana, uma cidade com cerca 2,5milhões de habitantes, tem dezenas de espaços culturais, alojados em imóveis históricos e outros novos ainda estão sendo criados - o Museu da Arte Infantil, por exemplo, está anunciando para o final do próximo ano. Em vários deles, além de atividades artísticas, funcionam escolas e serviços de assistência. Fenômeno que responde a uma realidade em que a arte está organicamente integrada aos fundamentos da revolução, inclusive sendo um assunto bem conhecido da população. Ser artista é profissão, a opção está inserida no sistema educacional e a maioria dos criadores vem das escolas e de cursos longos.


Há quem diga que, depois da grave crise na passagem dos anos 80 para os 90, motivada pelo colapso da União Soviética, Cuba está conseguindo refazer sua economia e, nos últimos cinco anos, respira um pouco mais aliviada, com o sistema mais aberto. Um motorista de táxi, admirador do regime, comparou as duas épocas, dizendo que antes havia dinheiro mas não havia comida e, agora, existe comida mas não há dinheiro. E a população, gentil e simpática, tem de lutar bravamente para conseguir complementar o salário (em torno de US$ 20), buscando dólares num florescente mercado semiclandestino (táxis, restaurantes, hospedagens em casa, etc) junto aos turistas.


ARTES DAS AMÉRICAS

Bienal de Havana avalia impacto dos novos meios de comunicação na realidade social

Algumas belas imagens: uma grande sala escura, com ruídos de vozes, vindos de centenas de pequenas alto-falantes, onde se ouve narrativas, em todas as línguas, de contatos ou visões de extraterrenos, obra da inglesa de Susan Hiller. Ou então: um vídeo, com brinquedos a corda, de diversos países, simulando relações amorosas, políticas e estéticas, da argentina Liliane Portes. E ainda: a instalação "Visões Sedantes", da brasileira Ana Tavares, um espaço refrigerado, com plantas, música suave (inclusive bossa-nova), sons para uma movimentada e ensolarada praça da Havana (um dos lados é espelhado).


A mineira Shirley Paes Leme, por sua vez, criou uma sala escuríssima, onde tudo que se vê/ouve são pequenas luzes e o toque de celulares. O mexicano Lozano Hemmer apresenta um programa de computador que, combinando palavras, despeja em pequenos painéis perguntas e mais perguntas (e o espectador pode acrescentar outras tantas). A guatemalteca Diane Sollares conta uma história de seus pais, com vídeos e slides projetados sobre uma velha geladeira.


Sonhadoras, melancólicas, irônicas, esta é a tonalidade das obras apresentadas na sétima Bienal de Havana que, como todas as grandes mostras, é irregular. Há um desejo de aproximar-se do outro, mas o caminho é longo, difícil, tortuoso. Reina absoluto, neste espaço movido na maior parte dos casos por aparatos mecânicos (as linguagens tradicionais praticamente desapareceram) um paradoxo: conectados com tudo e com todos acabamos, de fato, ameaçados de não nos comunicarmos com ninguém.

Ou ainda: mais viajados do que em todas as épocas anteriores, munidos de instrumentos sofisticados, aptos o captar o micro e o macro em escalas inimagináveis, encontramos sempre e repetidamente, em qualquer lugar do mundo, as mesmas imagens que, diga-se, repetem dolorosamente um sentido de solidão angustiante. Até o mais próximo (a família, amigos, a biografia pessoal) parece dissipar-se em estranhezas, distâncias e silêncios.

O sentimento final, mesmo considerando muitas obras de qualidade, é da ausência de expressões mais pessoais. Um grande artista: o cubano Kacho, uma estrela internacional com retrospectiva no New Museum of Contemporary Arts e obras no Moma de Nova York, com individual na programação paralela. Ele cria colunas, paródias de obras de arte históricas, ancoradouros, etc, com barcos e todo tipo de sucata ligada à navegação. São poderosas alegorias sobre a existência, os sonhos e a coragem dos humanos. No convento de São Francisco mostrou uma "jangada", construída de restos de madeira, sobre um oceano de garrafas de diferentes bebidas.


Multimídia

Mais atenção a problemas individuais do que com questões políticas: obras abertas à participação do público e criadas a partir da soma de vários elementos artísticos (música, vídeos, dança, sons, performance, cinema, vídeo, etc) e até não-artísticos. Tudo traduzindo uma preocupação com afetos e sentimentos e, especialmente, um desejo de maior aproximação com as pessoas. Assim Nelson Herrera, curador da Bienal de Havana, analisa a sétima edição do evento, cujo tema é a questão da comunicação e o impacto sobre a vida social dos novos meios de comunicação.

"A arte está começando a mudar definitivamente. Caminha na direção de um discurso mais complexo porque o mundo se tornou mais complexo. Já não bastam a pintura, a escultura ou a gravura", explica Nelson Herrera. Mas até que ponto a eliminação das linguagens tradicionais, seguida da proliferação de microfones, projetores de vídeo, fotos, mecanismos vários, não aponta apenas para uma homogenização global das artes, para a rarefação de expressões mais pessoais? "É um mundo desencantado, difícil, carente de utopias e, portanto, de poesia", responde.

Mas avisa: "Vivemos num mundo em convulsão, é um momento de transição da humanidade. Num período assim é difícil encontrar idéias muito claras. Há uma confusão generalizada em todas as áreas do saber", argumenta. E, respondendo à pergunta eixo da Bienal - afinal os novos meios de comunicação aproximam ou afastam as pessoas? - diz: "Aproximam sim, porque se pode conhecer de modo um pouco melhor situações de lugares que estão muito longe. Mas distanciam também, porque criam imagens deformadas, super-dimensionadas ou sem informação suficiente. Ainda existe muita manipulação tendenciosa de informações. Nada substitui o contato direto", conclui.

Sobre o encontro "Teoria e Crítica", que reuniu pensadores de todo mundo, Nelson Herrera conta que se tratou de problemas novos e provocações. "Os críticos estão todos enfiados em problemas dos seus países, só falam de artistas e grupos locais, desconhecem o que acontece em outras latitudes e poucos fazem avaliações globais". O curador não economiza elogios para a arte brasileira considerada "uma das melhores da América Latina". Na sua opinião, os três grandes centros produtores de artes visuais do continente são o Brasil, a Colômbia, Cuba. Os motivos, respectivamente, são a criatividade, a relação com o contexto social e o poder crítico das obras.
A Bienal de Havana custou US$300 mil, metade custeada pelo Ministério da Cultura de Cuba e outra metade por patrocinadores. Ocupou 30 espaços, com obras de cerca de 220 artistas - os mineiros que estão participando do evento são Shirley Paes Leme e Lucas Bambozzi. As Salas Especiais foram: Hélio Oiticica, Jean-Mitchel Basquiat, Wifred Lam, Cerâmcia Cubana Contemporânea, Arte Cubana dos 60 aos 90, Cartazes Cubanos. A estimativa é que, até janeiro, cerca de 100 mil pessoas visitem a exposição.


Paixão pelo Brasil

Nem só de novelas vive a imagem do Brasil em Cuba. O grupo Galeria Dupp, formado por alunos do Instituto Superior de Arte, vencedor do Prêmio Unesco para o Desenvolvimento das Artes, por exemplo, adora a arte contemporânea brasileira. Priscila Torres, Wilfredo Prieto, James Bonachea, Jóan Capote, todos com idade entre 22 e 24 anos, não escondem a admiração pela obra de Tunga, Cildo Meirelles, Valeska Soares, Lygia Clark, Hélio Oiticica etc. Fascinados pelas obras destes artistas, contam satisfeitos que um crítico, diante de uma mostra do grupo, disse que parecia arte brasileira.

"A arte contemporânea brasileira consegue conectar problemáticas locais e tem um sentido universal", elogia Joan Capote, sintetizando argumentos de outros grupos. O inimigo, para estes jovens autores, são "os horríveis clichês da arte latino-americana", entenda-se exotismo e folclore. "Não temos a preocupação de negar nada mas o fato é que as velhas ferramentas já não funcionam", ataca Capote. A sigla Dupp significa na busca de uma nova prática pedagógica (transpondo o universo acadêmico) e, por isso, o coordenador - o professor Rene Francisco - tem o status de integrante do grupo que tem 15 integrantes).

Para a Bienal de Havana criaram a obra "1, 2, 3... Testando", 100 microfones em ferro fundido, colocados na murada do Castelo do Morro, virados para dentro e fora da bela construção do século XVI, à beira mar, ao lado de velhos canhões. Além da idéia de que a comunicação é uma coisa antiga, exploram o sentido simbólico que tem o aparelho para a história de Cuba. Todos consideram a Bienal de Havana fundamental para a vida da cidade. Como não existe mercado de arte em Cuba é a grande oportunidade de apresentarem seus trabalhos para críticos, galeristas e intelectuais de todo o mundo. Neste período os artistas, inclusive, transformaram suas casas em galerias abertas ao público. (1)

Walter Sebastião(2)

Notas:
(1) Artigo publicado no Caderno Espetáculo, Estado de Minas, Belo Horizonte, 24 de dezembro de 2000, páginas 2 e 10.
(2) Walter Sebastião é jornalista, artista plástico e crítico de arte, além de membro do Instituto Arte das Américas.


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