Depoimento
Como surgiram os baixos-relevos nos seus
quadros?
Os baixos-relevos foram conseqüência da minha
viagem à Europa, onde eu conheci um momento fantástico
da arte. Eu tive a sorte de chegar na Europa em um momento de transição
em todo tipo de arte que existe no mundo. Foi um momento de revolução
nas artes plásticas. Nós vivíamos aqui em um
meio de muito preconceito, não se admitia uma sombra em um
desenho, dizia-se que o desenho era só linha, a pintura só
cor, a escultura só volume.
Na Europa eu vi a Documenta de Kassel e a Bienal de Veneza. Eu corri
museus e para minha surpresa vi esculturas coloridas... Vi um cavalo
de madeira imenso, colorido de vermelho, azul e verde, do artista
Marino Marine. O cavalo ocupava sozinho um salão enorme, com
as patas para cima, como se fosse dar um coice. Fantástico!
Vi esculturas de Léger com cores e por aí afora. Vi
em Roma quadros de Burri colocando madeira em um quadro a óleo,
quer dizer, incluindo sobre a pintura a óleo pedaços
de madeira. Havia também outras coisas, como objetos em quadros,
havia um quadro com sapatos! Foi o ano em que a Pop Art venceu a Bienal
de Veneza. Então percebi que era uma época de liberdade
e pensei: “por que só os europeus têm direito de
criar?” Eu vi que eu também tinha direito de criar e
a função do artista é criar. Bem, essa sensação
que eu tive, dessas modificações todas, me deram asas
e quando eu cheguei aqui no Brasil, eu que já gostava muito
de pesquisas e vivia pesquisando no meu ateliê, fiz as experiências
mais absurdas, inúteis e excelentes em cerâmica, e acabei
descobrindo muita coisa. E na minha pintura eu tinha que criar também.
Outra coisa que eu vi na Europa foi que os artistas estavam tentando
relevos. Vi em Lucca, na Itália, terra natal do meu pai, um
famoso artista local fazer experiências nos quadros usando aniagem.
Ele tinha colocado gesso em cima da aniagem para dar o relevo e pintou
por cima. Vi também Klee fazendo relevos e me deu aquela vontade
de fazer relevos. E o baixo-relevo surgiu dessa forma, quando eu cheguei
da Europa. Foi uma mudança radical. Eu criei minha própria
técnica, de ir costurando na tela e formando aqueles relevos.
Agora, eu mineira, o impacto da terra daqui de minério e tudo
mais, foi muito grande para mim quando cheguei aqui menina. Eu me
lembro dos presépios, onde as montanhas eram feitas de panos
colados e por cima aquele brilho feito de minério de ferro,
hematita e até birita, que é muito bonita. E nas casas,
passava-se o cimento, misturando o brilho do minério. E lembrando
disso tudo eu incluí também pedras nas minhas pinturas
e nos meus relevos. E assim eu não fui aceita, lógico,
falaram muito mal. Mas estou aí até hoje com meus relevos,
minha vida me pertence e a função do artista é
criar. E com isso uns odeiam outros gostam e eu fui vivendo.
Texto extraído do depoimento
da artista, publicado no livro Lisete Meinberg
Circuito Atelier, Belo Horizonte, Editora C/Arte, 2006, p. 34 e 35.
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Entrevista realizada em outubro de
2004 e outubro de 2005.