Raimundo artesão dos movimentos

Mônica Angela de Azevedo Meyer

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
(Carlos Drummond de Andrade)


À medida que o menino Raimundo crescia, crescia também a vontade de construir um presépio. Um presépio que funcionasse acompanhando e acelerando as batidas do vasto coração. A solução não se encontrava no nome. A fé, desejo, imaginação, criatividade, organização, persistência, disciplina moviam Raimundo na arte e no ofício. A princípio, “sem saber o que estava fazendo”, começa a moldar as figuras e montar cenas. Nasciam o Pipiripau e o menino Jesus dentro de uma caixa de sapato forradinha de musgo e cabelos de milho.

Raimundo tinha pouco estudo, não passava do primário. Aprendeu as letras e as contas com a mestra, d. Gilberta, na Escola Primária Isolada. Entretanto, sua capacidade de leitura ultrapassava as cartilhas do beabá. Gostava de ler revistas e jornais. Selecionava e guardava reportagens de temas natalinos. O fascínio pelas máquinas, tecnologia que despontava no início do século passado, estimulou sua curiosidade e inventividade. Atento observador, estudava minuciosamente a mecânica e a arte cinética. Atento observador, coletava tralhas e bugigangas para transformá-las em arte. Reinventava novos usos para uma variedade de pecinhas, objetos, pedras, animais marinhos, tocos de madeira, carretéis, fios e arames. Geralmente material descartável. Nada era desperdiçado. Tudo valioso e com serventia. Colecionava.

O trabalho também foi uma escola. De cada ofício que exerceu aprendeu um pouco. Valendo-se de sua inteligência astuta e dos saberes aprendidos, foi confeccionando gradativamente as 580 figuras e montando as 45 cenas móveis do Pipiripau. Praticamente a metade das cenas conta uma história de vida integrada ao bairro e à organização da nova capital das Minas Gerais. Neste aspecto, cabe destacar que o Pipiripau revela uma sincronicidade entre as histórias do menino Jesus e do menino Raimundo. Vários ofícios de época são representados: sapateiros, ferreiros, lavadeiras, lavradores, caçadores, lenhadores, tecelãs, músicos... O universo infantil está retratado através das brincadeiras de carrossel, zanga-burrinha, pau-de-sebo e o Papai Noel. Desta forma, o Presépio do Pipiripau traduz um Belo Horizonte. Um belo e encantador horizonte de festas populares, artes e ofícios familiares e comuns entre os moradores nas primeiras décadas. A outra metade das cenas reproduz as passagens bíblicas recontando a vida de Jesus Cristo, do nascimento à ascensão.

A paixão pela música sempre acompanhou o artesão. Nas sessões que precediam as exibições do presépio, bolachas de vinil giravam no prato da radiola. A pilha de temas selecionados variava entre boleros, tangos, marchas e pastorinhas. Entre os discos preferidos para entretenimento, Música à luz da oração - com gravações de peças de Chopin, Beethoven, Handel, Debussy, Schubert, Bach. O ritual de fechamento da cortina de pano, que separava a oficina do presépio, marcava o início do teatro Pipiripau. Silêncio. Luzes, ação. A movimentação das cenas, que foram acrescidas ao longo dos anos, quebrava o tempo estático e tudo a partir daquele instante tornava-se mágico. Até 1927, velas, lampiões de querosene e gasômetro de carbureto bruxelavam, dando mais vivacidade às cenas que dobravam de boniteza.

Com a chegada da energia elétrica, o encantamento não se perdeu, redobrou. Luzes, cores, brilhos, barulhinho de água, de sino, de coração batendo forte de alegria e de medo dos trovões. Quanta magia presente na armação do Pipiripau, que ocupa 20 m2 de área. Ao lado dele, nascia em 1964 outro presépio, em miniatura e mais modesto, o Pipiripin. Com 4m2 de tamanho e com idêntica mecânica e funcionamento, servia para entreter o público que aguardava a próxima sessão do Pipiripau. Até 1976, esses presépios permaneceram na casa de Raimundo, localizada à av. Silviano Brandão, depois foram transferidos para o Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, onde funcionam até hoje.

O universo inventivo e mágico de Raimundo pode ser em parte conhecido através de sua oficina. Em 2002, por meio de documentação fotográfica e de depoimentos, reconstituimos sua oficina com alguns móveis, peças, objetos e ferramentas originais. Ocupando um espaço de 12m2, localiza-se ao lado do Pipiripau e do Pipiripin. Na parede, o antigo e grande relógio quadrado: quantas horas são? 16h50. Nas prateleiras da oficina outras máquinas marcam outros tempos. As velhas calculadoras, verdadeiros monstrengos, comparados com as minúsculas e digitais calculadoras de hoje, máquinas de costura, máquinas de escrever, máquina de retrato, ferro de passar, cilindros para preparar massa de pastel, rádios, rodas de bicicleta. Dispostos nas estantes, os três mecanismos que deram vida ao presépio: gramofone, máquina a vapor e o primeiro motor elétrico, comprado em 1927. O mundo das máquinas: uma solução! Ainda em sua oficina, santos devotos e artistas preferidos. O Papa Paulo VI e um crucifixo dividem espaço com Roy Rogers e a jovem de duas peças na praia. Um diálogo sagrado e profano. Na bancada de trabalho, uma variedade de ferramentas e moldes confeccionados por Raimundo. Espalhados em caixotinhos, latas, bacias uma variedade de pregos, parafusos, peças, pó-de-pedra para recriar e montar o presépio. Uma velha lata de fermento Pó Royal chama atenção. Ali, Raimundo guardava balinhas para oferecer à platéia, principalmente as crianças. Em casa sua esposa, dona Ermenegilda, tinha o costume de servir mentirinhas, nome sugestivo dado às sobras de massa de pastel que, depois de fritas, eram polvilhadas com açúcar e servidas aos visitantes.

Toda a engenhoca do Pipiripau pode ser conhecida e admirada. Uma vitrine de vidro, com dimensões de 2x1m2, foi instalada em 2001 para que o público pudesse observar o presépio em movimento. Rodas de máquina de costura e de velocípedes servem como polias. Vários carretéis de linha, como roldanas. Bucal de lâmpadas, velas de automóveis e latas, como contrapeso. Uma centena de barbantes e arames fazem as amarrações. Material simples e reaproveitado. Tudo funcionando de maneira harmônica e sincronizada. Um outro espetáculo, agora da mecânica, que também encanta os olhos dos visitantes. Na hora da encenação dos trovões, uma cortina fecha a vitrine. Momento especial que permanece oculto do público.

A alegria e satisfação dos visitantes com o Pipiripau entusiamavam e motivavam Raimundo. Essas manifestações encorajavam o artesão para continuar ampliando o presépio. Num caderno pautado registrava diariamente o número de visitantes. Em cada página escrevia no cabeçalho a data, e em colunas verticais anotava o número de pedestres e de carros. No final do dia obtinha o total: 1º/1/1981 - 2.539 pessoas e 134 carros. Arquivava também correspondência recebida de alunos e políticos, entre eles Juscelino Kubitschek. Sempre palavras carinhosas: “sua obra nos dá uma lição de paciência, engenhosidade, inteligência e persistência. Muito obrigado por nos deixar uma obra tão significativa”; “Fiquei emocionada como o senhor fez com pedaços de pau, papel, barbante e tinta a vida de Jesus”.

Raimundo que ensinou a Emmanuel que ensinou a Armanda que ensinou Carlinhos que continuam o movimento do Pipiripau. Raimundo, artesão dos movimentos, não morreu, encantou-se. Pipiripau de 97 anos. Cada sessão, uma descoberta. Cada olhar, uma interpretação. Contam-se histórias. Transcende. Pipiripau, que bonito!