Álvaro Apocalypse - Depoimento

"No meu trabalho, sempre compreendi o desenho como a minha linguagem, tanto que o considerava a verdadeira maneira de fazer arte, pelas suas concisão, espiritualidade e falta de cor. O desenho é uma escrita, é o resultado de um gesto feito no espaço, numa superfície. Esse gesto pode ser composto pelo deslocamento de um corpo inteiro, pelo deslocamento de parte do corpo, ou seja, do braço, pelo deslocamento da parte anterior do braço, pelo deslocamento da mão, ou apenas pelo deslocamento do dedo. Pode ser uma explosão de movimento no espaço, partindo de um grande gesto, um grande movimento envolvente, como num balé, como pode ser um movimento somente do dedo, caligráfico e intimista, uma carta.

Durante todos esses anos, fui introduzindo paulatinamente novos elementos no meu desenho, até chegar à pintura. No início tinha a lição do mestre Guignard, o lápis duro. Quando entrei na escola e comecei a desenhar, utilizava, como todos os outros, o lápis duro. Existiam lápis que até fincavam na madeira, de tão duros. Apresentei no Salão Municipal uma série desses desenhos, eram feitos de tal maneira, que não se enxergava o grafite, só existia o sulco do desenho no papel. Eram desenhos quase táteis, um cego podia passar a mão e perceber o relevo. Desenhava dessa forma, pois queria eliminar a materialidade do desenho, criar um desenho despojado de cor, puro espírito, sem ao menos a cor do grafite, só o sulco no papel, por isso desenhava com lápis muito duro.

(...)

Mas a série de desenhos com linhas em que usava o lápis duro foi essencial, pois dessa experiência tirei uma grande lição. Desenhar com lápis duro deixava o erro registrado no papel, portanto, não se podia errar, pois o lápis sulca o papel e não há como apagar. Restam, então, ao artista duas alternativas: recomeçar o desenho ou aceitar o erro, e eu optei por aceitar o erro. Passei a entendê-lo como uma nova razão no desenho. Escrevi uma poesia em que dizia: "Cultivemos nossos erros / como quem cultiva uma nova razão". A partir desse momento, se fizesse o contorno de uma figura, mas o braço ficasse de uma forma que eu não queria, mas que era aceitável, continuava a desenhar. Aceitar o erro como parte do trabalho deu-me um sentido de liberdade e, principalmente, a noção de que em arte não se erra, o erro não pertence ao vocabulário da arte, em arte não tem certo ou errado.

A linha continua, até hoje, sendo o meu tema de investigação. Fiz especulações a respeito do espaço, uma linha sobre a outra, uma linha na frente da outra. Comecei também a fazer especulações com o suporte, desenhava com um material muito rígido - o lápis duro e o bico de pena - e, depois, desenhava passando para outros extremos, usando carvão, pincel e aguada. Com o carvão não era possível fazer um desenho com riqueza de detalhes, como com lápis duro. Tem-se que fazer gestos grandes. Dessas experimentações veio outra conclusão: o desenho é superfície, é o resultado de um gesto no espaço. Então, desenhava com grandes folhas de papel, permanecia de pé e afastado do cavalete, movia o braço inteiro, fazendo gestos e gravando. Essa descoberta para mim foi fundamental, tanto como professor quanto como praticante de um desenho gestual, de modo que, a partir desse momento, introduzi em meu desenho o movimento como um outro elemento de especulação."

 

Álvaro Apocalypse: depoimento. Coleção Circuito Atelier.
Belo Horizonte: C/ Arte, 2001, p. 28-30.
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