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Ave, Palavra! A saudação de Guimarães Rosa, estampada na capa de seu último livro, refaz-se diante da obra de Arlindo Daibert, no meio do redemoinho do Grande Sertão: Ave, Imagem! Arlindo Daibert ilumina Guimarães Rosa. Palavra e imagem se encontram, se fundam, celebram interação perfeita. O artista varou as veredas da linguagem e alcançou novo universo, no qual palavra e imagem aderem a uma expressão surpreeendente - terceira margem do rio - e recriam a saga do Riobaldo e Diadorim. Ave, Imagem! Arlindo Daibert, AD como Alberto Durer, íntimo do verbo e da visualidade, entregou a Minas Gerais e ao Brasil um dos mais importantes legados artísticos de nosso tempo. O raio grego atravessou-lhe o cérebro. Quem como ele? Nonada. Jovem, viveu adiante, contemporâneo do futuro. Artista plástico, senhor do desenho, inovou a pintura, redimensionando-a no objeto. Semeou instalações. Apaixonado pelo texto, arrastou-o para o contexto gráfico da imagem. Alice e o país das maravilhas, Macunaíma e o país tropicalista, Riobaldo e o país dos buritis perdidos se revelam ao olho armado. Um dia, atravessando a rua juiz-forana, viu um talonário de estacionamento noturno jogado ao chão. Daí adveio fantástico o trabalho sobre as Mil e Uma Noites, palavra escrita gerando imagem plástico-visual, narrativa fluindo em instalação. Referências eruditas engendraram achados brilhantes na trama lúdica em que se enredara, palavra e imagem. Prazer muitas vezes secreto do artista, cifrado no código fabuloso. Ao espectador, porém, jamais foi negado o espanto. Logo todos viram que ele era um criador singular. Murilo Mendes da imagem, Daibert tomou ao poeta a kodak do "retrato-relâmpago". Pedro Nava da visualidade, recuperou o tempo na face do ícone. Era um artista imenso, sem fronteiras, pois as abolia todas. Andou pelo mundo. Morou em Paris, voltou ao Brasil, nunca se distanciando de Juiz de Fora, onde dava aulas e incentivava a ação cultural. A cidade de Tiradentes se incorporou a seu roteiro. São Paulo, Rio e Belo Horizonte mostraram sua obra em salões e exposições especiais. A morte chegou em agosto de 1993, na véspera da exposição da série do Grande Sertão em Ouro Preto, que se abriu, na data marcada, no Anexo do Museu da Inconfidência, como homenagem ao grande artista. A iniciativa do 27º Festival de Inverno proporciona a Ouro Preto o privilégio dessa mostra, pela qual se amplia o conhecimento de um trabalho que merece ser sempre lembrado. Neste século que termina, Arlindo Daibert inscreve-se como presença viva na história da arte.
Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, em catálogo da exposição Arlindo Daibert - Objetos, Anexo do Museu da Inconfidência, Ouro Preto (27º Festival de Inverno da UFMG, 1993). |