Arlindo Daibert - Depoimento

"A arte tem de estar comprometida também com a inteligência. Ela deve exigir do espectador tanto esforço quanto exigiu do criador. Seu papel é mudar a ordem das coisas, e não contribuir para a fixidez ou para o continuísmo. Claro, é um risco que se corre. O público fica inseguro, as vendas caem, as galerias se apavoram com o caráter cultural e pouco comercial das propostas, mas tudo isso não pode ser encarado como surpresa pelo artista. Tudo isso é conseqüência de seu ato, e o tempo se encarrega de colocar o público e os marchands na mesma sintonia que o artista. Mas, diabolicamente, o artista está sempre pensando um pouco mais à frente. Esse potencial de seduzir e não iludir. Quando proponho uma exposição como Macunaíma de Andrade, penso, antes de mais nada, em estimular o espectador a retomar meu raciocínio e acrescentar seus dados pessoais a meu projeto de criação. Complicado? É uma questão de convívio. O público também deve ser esforçar e se expor ao contato, tentar se libertar de seus preconceitos e estereótipos artísticos. Afinal, a representação realista do mundo físico é somente uma das tantas da produção artística. É preciso correr o risco e se deixar envolver pela obra. O artista - decepcionando os mais românticos - não é nenhum ser bizarro, exótico, uma avis rara. É somente alguém que escolheu se afastar um pouco para poder se entregar integralmente à sua experiência existencial. Esse distanciamento é, na verdade, a busca de uma aproximação maior com algumas coisas essenciais. Esqueçam a literatura e pensem no artista como um ser humano que trabalha, enfrenta dificuldades prosaicas e desagradáveis e corre até o risco de se transformar numa espécie de bode expiatório das frustrações alheias. Somos somente um bando de trabalhadores mal remunerados e sem direito de greve. Simplesmente optamos por matar o patrão desde o começo. Espero não ter destruído as fantasias de ninguém. Agradeço a homenagem que me prestam, mas espero que não se esqueçam de que o verdadeiro homenageado é meu trabalho. É para ele que reivindico todo e qualquer tipo de reconhecimento, mesmo da parte de todos aqueles que, por razões diversas, nunca tiveram qualquer contato com ele. Não se esqueçam de que, por mais frágeis que possam parecer, o que realmente fica é o papel, é a tela. Passaremos para a lembrança, mas o trabalho é nosso único atestado de vida, e disso não podemos nos afastar."

 

Arlindo Daibert: depoimento. Coleção Circuito Atelier.
Belo Horizonte: C/ Arte, 2000, p. 69-70.
Veja mais informações sobre o LIVRO.