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"O anjo da guarda é proporcional"
Cada vez mais as artes plásticas vão estar explicadas noutros lugares que não a crítica. Foi lendo Jamaica Kincaid, num texto sobre jardinagem, que entendi isto, no panorama da arte contemporânea. No tal artigo, sobre a exposição de flores de Chelsear, ela diz que a guerra, dentre outras catástrofes maiores e menores, significou a morte de muitos jardineiros, que viraram soldados e não voltaram das batalhas. A morte destes jardineiros significou bem mais que o abandono de belos jardins ingleses, significou a perda de sutilezas, como a de discernir certas coisas, saber separar uma peonia de um rododendro, por exemplo. É necessária toda uma geração para recuperar estas nuances classificatórias, estas sutilezas do conhecimento e do espírito. O mesmo se pode dizer da arte. A guerra, no caso, é a pressa, que elimina o trabalho do pensamento sobre a obra, o sucesso rápido, baseado na máquina de mercado. E aí eu coloco Andrea Lanna, que tem uma trajetória sem deslumbramento com modismos, entregue à lenta feitura de uma obra, com hesitações e sem afobação. Venho acompanhando o trabalho dela há algum tempo, e posso dizer agora, sem favor, que pela primeira vez vejo um resultado de grande maturidade plástica, o que me convidou a escrever sobre ela. Neste momento nossas preocupações estéticas encontraram-se num ponto comum. Mais uma vez estamos enfrentando uma crise de fim-de-século, com toda a confusão típica sobre o estado da arte, e é bom reencontrar "clássicos". E então voltamos aos jardineiros, que por trás da aparência de ordem absoluta e perpétua (parece que sempre foi assim) e por trás do uso de um mesmo repertório de meios e materiais, fazem sempre o novo e o diferente. Assim também Andrea Lanna, que oculta sob a superfície resolvida de sua pintura, de seu colorismo já formalizado pela prática, todo o trabalho diário de resolver conflitos, o que se entrevê aqui e ali (São Sebastião, afinal de contas, encontrou o gozo místico em ser trespassado por flechas, São Lourenço queimado vivo numa grelha disse: "Pode virar agora, já está assado deste lado"), quando se percebe que a transcendência é também gostosa. Ela mesma me disse: "fazendo luz no porão para contar uma história". Estes trabalhos têm a segurança e a solidez de uma dedcação à pintura, no ritmo que ela definiu como "evoluindo num passo de tartaruga, numa dança russa...". Coroamento de uma carreira que vem apontar um rumo dentro da desorientação do atual, quem quiser que o siga: enfeitar, educar, consolar. Celebrar o presente e o prazer momentâneo que nele sentimos. Já é bastante esta tarefa que ela cumpre, não é?
Luiz Henrique Horta Silva |