Visões de Pampulha

(sobre a exposição de Ana Maria Tavares “Porto Pampulha”)

Le Corbusier disse uma vez para Niemeyer: “Oscar, você tem sempre nos olhos as montanhas do Rio”. Ana Maria Tavares tem a paisagem da Pampulha nos seus. Esses olhares, ou melhor, visões, se cruzam no ex-cassino, hoje museu de arte.

Visões, pois ambas vão além do horizonte. No entanto, os parâmetros de horizonte e a configuração do local desse encontro memorável foram traçados e lançados pelos modernos, que no caso de Belo Horizonte transformaram um curral em cidade há cem anos. Mário de Andrade comenta jocosamente: Minas ...“também quer ter também capital moderníssima também...”. O contexto é apropriado e gerador: depois de Pampulha nasceu Brasília! Porém, se Brasília é um feito e monumento, o conjunto paisagístico-arquitetônico da Pampulha —formado pela lagoa e seus marcos constituintes: o Cassino, a Igreja, os dois Iate Clubes e a Casa do Baile— é um esboço, latente obra em transmutação.

Neste contexto moderno, ou seja, nesse moderno localizado, esta individual de Ana Maria Tavares não é mero texto, ou seja, mais um conjunto de obras dentro de um espaço de arte (museu), mas uma instalação intertextual e singular que integra e questiona as artes: um destaque pós-moderno.

Na década de 50 Mário Pedrosa comentava sobre a dificuldade de integração da pintura e escultura com a arquitetura moderna, essa última uma síntese das artes. Para ele nem Portinari, tampouco Bruno Giorgi ou Ceschiatti davam conta do recado! No entanto, o destaque era Burle Marx, aquele que de acordo com este crítico, concedeu cidadania às plantas plebéias. Enquanto os artistas oficiais eram agregados à arquitetura comandada por Niemeyer, Burle Marx, com seu paisagismo de origem pictórica, ampliava e reforçava as majestosas e sedutoras ondulações espaciais destas construções. Esta parceria entre o arquiteto e o paisagista geraram ambientes que integram de forma magistral espaços internos e externos.

A intervenção de Ana Maria Tavares nesta parceria é pós-moderna, não só pelo distanciamento temporal como também pela ação crítica, pois ao mesmo tempo enfatiza esse legado moderno específico e se contrapõe a ele. Ela revitaliza a parceria e também a pretendida integração das artes ao permitir que a planta aberta do espaço interno dialogue com a paisagem circundante. O seu trabalho não está entre paredes brancas, mas se insere em um ambiente. Essa consciência e domínio espacial se explicitam com a “visita guiada” no interior do museu com o carrinho elétrico “Amigo J9”: um “ready-made” motorizado, que permite a síntese dessa experiência-crítica de arte que Ana sugere com o conjunto de obras expostas no MAP. Já o bosque formado pelas colunas de aço inox, adicionadas com alças, catracas, bancos, biombos, roletas, espelhos, fragmentam essa experiência, desvirtua a capacidade harmônica desta re-composição articulada pela artista, colocando em xeque a nossa própria presença nesse espaço.

A sedução impositiva da arquitetura moderna é transgredida pela hipnose alienante provocada pelo reluzente bosque de aço inox, vidros e espelhos, e pelos cativantes objetos complementares como o “Carroussel” e o “Cavalete”. Não é a toa que ela nos oferece bancos para sentar... Assim se desvela a perversão pós-moderna: as obras, nesse espaço, nos atraem, nos fascinam, mas ao mesmo tempo nos repelem. Porto Pampulha conota essa polarização, esse jogo entre o estar abrigado sob a fiança da sensualidade do belo das obras expostas no ambiente-museu e o ser em trânsito em um não-lugar, no caso o museu em sua atemporalidade turística. Essa condição transitória é alimentada pela ação crítica da instalação da artista, que vai buscar cumplicidade com aquele que por ali passa. Ana possui uma visão com anteparos, com reticências, que nos coloca em posição de alerta frente a possibilidade de nos submetermos, assim sem mais nem menos, ao belo.

Os modernos, calçados por certas doutrinas modernistas, visualizavam sem restrições o futuro através de um ponto-de-vista quase sempre dogmático. O trabalho de Ana é polissêmico: divide com o visitante a possibilidade de re-composição desse legado cultural contraditório mas original, assim como adiciona mais uma dimensão a esta linhagem clássica da arte no Brasil. A artista fornece amparos e armadilhas para o visitante desse jardim de esculturas, lembrando que a arte não é mero deleite estético ou discurso entrópico ou utópico, mas agente de transformações.

Martin Grossmann

São Paulo. 7 de setembro 1997