IOLE DE FREITAS
Chama a atenção desses “estudos de espaço”, que Iole de Freitas apresenta no Centro Cultural Banco do Brasil, a configuração arquitetônica em que a artista acabou por dissolver a escultura. Não pode passar despercebido, afinal, o fato de o trabalho não surgir tanto como o conjunto de objetos (“esculturas”?) que o constituem, mas antes feito um acontecimento único, todos esses objetos tendo seus contornos embaçados, relativizados em justaposições sucessivas, revelando-se descarnados e potencializados a um rol mínimo de elementos estruturais. Os objetos, então, em vez de se adicionarem ao espaço, como normalmente fazem as esculturas, nele se dissipam, transformando-o num campo de forças que se faz sentir para além da objetividade empírica que casa um deles carrega. O que se tem agora, mais do que uma série quantificável de eventuais esculturas, é um complexo de superfícies de policarbonato e linhas tubulares que se retesam ou descomprimem em gordos arqueamentos, num trânsito frenético entre uma infinidade de experiências psicossensoriais: interior e exterior, leve e pesado, contínuo e descontínuo.
O trabalho sugere, dessa maneira, uma arquitetura “mole” e translúcida, a se desenvolver sem cerimônia por dentro da arquitetura sólida do prédio ou, mais precisamente, a deshierarquizar o que esta estabelece como um “aqui” interior e a exterioridade que se desdobraria para além de duas paredes, “lá fora”, no ambiente da “cidade”. Diferentemente da natureza institucional e material daquela, a arquitetura efêmera e ambulante do trabalho, pensada no horizonte da utopia de um corpo dotado de inesgotável plasticidade e capaz de transitar sem solução de continuidade entre o intimismo do gesto e a impessoalidade do design, embaralhada e comuta livremente o acaso e o planejamento, o próximo e o distante, o interno e o externo, obedecendo às suas próprias leis de funcionamento, revolvendo e transtornando os modos de uso de toda arquitetura, embora em negociações cerradas e pontuais com ela, seja qual for tal arquitetura.
Porque também institui uma temporalidade própria, as construções orgânicas de Iole de Freitas fazem variar, animadas pelo espírito de jogo e da montagem, a relação entre o “aqui” e o “ali”, o “antes” e o “depois”, ora descobrindo o espaço como a eclosão de um tempo acelerado, espécie de presente múltiplo e descompactado em incontáveis camadas simultâneas, ora refreado por força gravitacional entorpecedora. Considerando o percurso da produção de Iole, cuja característica mais marcante, como se sabe, é a leveza e a vontade de se constituir não mais do que como uma experiência espaço-temporal, desonerada de peso e massa, e que, sobretudo, rejeita a ilusão da tridimensionalidade do espaço, o trabalho realizado para o Centro Cultural Banco do Brasil sinaliza um ponto culminante nesse percurso. Devir de superfícies múltiplas em periclitante sustentação recíproca, os “estudos de espaço” indicam que a artista deseja abdicar mais radicalmente ainda da dimensão objetual da escultura, concebendo-a como um feixe de pontos de vista móveis, descentralizados, aptos a reconstruir permanentemente o lugar do sujeito.
Sônia Salztein
In:
SALZSTEIN, Sônia. Iole de Freitas. Rio de Janeiro, 2005. Catálogo da exposição Iole de Freitas, Centro Cultural Banco do Brasil.
Texto crítico – Sônia Salzstein – Catálogo CCBB/RJ – p.12-13
Iole de Freitas - Notas sobre a exposição no CCBB/RJ