Depoimento
EM 1999, VOCÊ APRESENTA TERRITÓRIO VAZADO NO MAP/BELO HORIZONTE. COMO VOCÊ RELACIONA ESSE TRABALHO APRESENTADO NO MUSEU DA PAMPULHA COM AS SÉRIES ANTERIORES, OU SEJA, AS SÉRIES TETO NO CHÃO, CORPO SEM ÓRGÃOS E ESCRITO NA ÁGUA ?
A instalação feita no Museu da Pampulha apresenta um sistema de grandes volumes vazados, autoportantes, que ocupavam toda a área do Museu, relacionando-se com elementos de vidro que continham impressões de imagens referentes à série Escrito na água. Esses vidros, apoiados nas vidraças que compõem a fachada do Museu, duplicam seu formato, esguio e delicado, parecendo deslocar-se delas em direção ao chão. Apoiados pelos elementos de ardósia, apresentam em sua superfície o registro de vultos que remetem à idéia de fugacidade do olhar. A transparência e a translucidez — questões pertinentes à poética da obra — surgem tanto nos elementos de tela vazados quanto na corporeidade das lâminas de vidro, que retêm o vestígio de vultos esguios, vestígios da memória dos Velasquez e Giacomettis. Essas lâminas remetem a uma certa idéia de religiosidade, como se fossem figuras que compõem determinadas organizações plásticas, como aquelas, que tanto admiro, criadas por Matisse para uma Capela.
EM QUE SENTIDO ESTE TRABALHO DIALOGA COM A ARQUITETURA DE NIEMEYER?
Não só neste, mas em diversos trabalhos (como o do Museu do Açude e o do Centro Cultural Hélio Oiticica), quando a minha obra se relaciona com um determinado projeto arquitetônico, quando o olhar elege um lugar, propõe problemas estéticos a serem resolvidos. Numa arquitetura de qualidade, como a de Niemeyer, esta condição torna-se mais desafiadora e estimulante. Busco entender a espacialidade ali criada, sua potência poética, para que a singularidade do meu projeto em relação à obra do arquiteto se construa, incorporando o local de implantação, o lugar, a paisagem. Então, aquela circularidade presente, em alguns momentos, no Niemeyer da Pampulha e, de modo vigoroso, no MAC, de Niterói, propõe tal ativação do espaço que leva a poética do trabalho à descoberta de novos elementos de linguagem.
NO CATÁLOGO DE TERRITÓRIO VAZADO, FOI PUBLICADA UMA ENTREVISTA COM A PARTICIPAÇÃO DE SÔNIA SALZSTEIN E WALTER SEBASTIÃO, NO QUAL ELES SALIENTAM A QUESTÃO DOS LIMITES DA ESCULTURA. COMO VOCÊ PENSA A QUESTÃO DA ESCULTURA EM CAMPO EXPANDIDO NO SEU TRABALHO?
No impulso que empurra o trabalho fazendo-se vazar das áreas legitimadas como espaços museológicos para espaços urbanos ou da paisagem, criando uma nova idéia do continuum. Por não depender da fisicalidade de seus elementos, mas sim por ativar um determinado percurso, uma série de deslocamentos óticos e corpóreos a serem realizadas pelo espectador, como, por exemplo, aconteceu nos trabalhos do Museu do Açude e do Centro Hélio Oiticica.
A discussão sobre sítio e lugar, sobre site-specific, sobre o campo expandido da escultura é bem desenvolvida por Rosalind Krauss no livro Passages to modern sculpture, principalmente nos capítulos que falam sobre Michael Heizer e Smithsom. Mas é interessante não fechar dogmaticamente conceitos, e sim abrir espaço para reflexões e experiências.
Aconteceu uma coisa interessante: sempre presto muita atenção na fala dos artistas sobre o trabalho deles e dos outros e, quando falam sobre os meus, assimilo com muita seriedade aquilo que me parece pertinente. Pedi ao Amílcar de Castro para dar uma olhada na exposição da Pampulha. Ele foi, ficou um bom tempo, e conversamos sobre a questão do continuun nas obras contemporâneas. Queria saber como o olhar dele se relacionava com o meu trabalho, na decisão de ir-se desdobrando e invadindo o espaço, mantendo um continuum. Ele, olhando, me disse: “— Mas por que você não pára aqui?” (observando determinados segmentos da instalação), “e este volume em si?” (e mostrava os grandes volumes), “ele já detém a questão plástica; por que ele tem de estar relacionado com tantos outros instantes plásticos?” (como se ele falasse assim: “— Deixe-o sozinho num lugar para que possamos enxergá-lo em si”). Obviamente, eu o ouvi com todo o cuidado. “Então, como seria?” me perguntei. Retornei ao raciocínio de continuação destes volumões e cheguei a um ponto de tensão entre a fala dele e a minha vontade e projetei os Aglomerados e Acumulados, trabalhos que têm elementos que se acumulam num equilíbrio de risco e se instalam no espaço, criando uma certa unidade corpórea. Daí, resultou a exposição feita na Galeria Raquel Arnaud, em São Paulo. Estes trabalhos pertencem a duas coleções: a de Almeida Braga (Rio Grande do Sul) e a de João Avelar (Minas Gerais).
Depoimento – Circuito Atelier – Território Vazado/MAP - p.35-36