Modus Operandi
Maria Angélica Melendi
EBA, UFMG, CNPq.
A arte hoje, mas do que nunca, deixa detrás de si uma sombra, uma silhueta menos luminosa na qual se oculta tudo o que ela tem de inquietante e enigmático. Quanto mais violenta é a luz com a qual quer se iluminar a obra e a operação artística, mais nítida é a sombra que elas projetam...
Mario Perniola
Para falar do trabalho de Fabrício Fernandino, é preciso destacar as mudanças que sofreu a arte, sobretudo a escultura, na passagem dos anos 70 aos 80, quando seu conceito tornou-se extremadamente amplo. Hoje consideramos como esculturas estreitos corredores com monitores de TV ao fundo; grandes fotografias documentando caminhadas campestres; espelhos dispostos em ângulos inusitados em quartos comuns; linhas provisórias traçadas sobre o chão do deserto.
Se sua primeira expressão foi a pintura — uma pintura solitária, reflexiva — logo depois a escultura foi se perfilando como a única opção possível. O processo introspectivo da pintura parecia se adequar a um momento melancólico, de solidão que, aos poucos, se transformou em impaciência de criação. Máquinas, equipamentos, ferramentas, dispositivos industriais e ainda movimento, força, ação. O fazer tridimensional estava próximo, acenando com seus procedimentos colaborativos, com seu grande dispêndio de energia física, com suas produções imponentes.
São as obras em pedra as que denunciam a fascinação do artista pela matéria bruta. Os blocos de granito amontoados ou organizados em séries regulares deixam perceber a profunda empatia com a pedra em seu estado natural. Não há cortes perfeitos nem superfícies polidas; aparece, às vezes, o risco impreciso de um círculo ou uma linha apenas incisa.
Mas também há a madeira, o metal, o fogo, a água, a terra. Seres elementares que se organizam em composições sofisticadamente simples e que evocam os antigos lugares do sagrado. Bacias com água, cântaros em chamas, círculos de pedras, de toras, de galhos, de terra: empilhados, apoiados, riscados sobre o chão vermelho.
E, se no seu depoimento, um texto quase confessional, sua vida e sua obra são relatadas num entrelaçamento preciso que as iguala e as equivale; nas imagens que nos oferece é constante a presença dos outros.
O certo é que nas fotos que tenho ante mim, povoadas de pessoas, Fabrício não aparece quase nunca e, quando o faz, está olhando para outro lado, solitário no fundo da cena, irreconhecível na distância. Os alunos, os colaboradores, eles sim, sorriem para a câmera. Sem dúvida, foi o artista quem fez essas fotos. A obra concluída ou em processo tinha que ser documentada e eles eram parte importante dela. O trabalho compartilhado parece ser um dos núcleos de sua produção.
As recordações da criança se sobrepõem na imagem do adulto: às vezes pegava livros e desenhava nas páginas, ia construindo imagens no livro. Mas a opção pela arte demora a se manifestar e Fabrício percorre um caminho que atravessa a técnica, a engenharia, a criação e execução de projetos.
Tal vez venha dali, desse desvio, seu fazer tão envolvido com a vida, com a natureza, com as pessoas. O cerne de toda a minha obra é a vida, o artista afirma com veemência; pois, para ele, a arte é um processo de conhecimento, no qual, todas as pessoas envolvidas podem participar sem ter de cumprir processos previamente determinados. Juntos, os artistas — os professores, os estudantes —, criariam ações tendentes a provocar mudanças ecológicas ou sociais, a quebrar estruturas ultrapassadas de pensamento sobre o mundo. Por isso, o artista acredita que a relação de professor e aluno é uma via de mão dupla onde se aprende e se ensina.
Ao buscar novos modelos de produção e divulgação do conhecimento, Fabrício não esquece que é necessária a deconstrução sistemática das verdades estabelecidas e a interação de disciplinas e de campos do saber que até hoje se mantinham separados. A exposição de arte é um lugar de intercâmbio simbólico entre o artista e a comunidade e Fabrício Fernandino, um propositor que ajuda a desenvolver cidadãos críticos capazes de postular novos diálogos.
O texto acima foi publicado no livro Fabrício Fernandino
Circuito Atelier, Belo Horizonte, Editora C/Arte, 2007, p. 3 e 4.
Veja mais informações sobre o LIVRO
1- Perniola, Mario. L´arte e la sua ombra. Torino: Einaudi, 2000. p. ix. Tradução da autora.
2 -Krauss, Rosalind E. The Originality of the Avant-Garde and Other Modernist Myths. Cambridge: The MIT Press, 1986. p. 277. Tradução da autora.