DEPOIMENTO

O ensino da arte como experiência criativa:

Quando terminou minha pesquisa sobre fundição houve outro momento de impasse. Eu tinha uma carreira técnica de mais de 10 anos como projetista e a estrutura consolidada de uma empresa, mas saí da Escola sem um direcionamento referente à arte e optei por continuar meu trabalho de projetista. Dedicava mais tempo aos projetos e atendia empresas nas áreas de plásticos, borrachas, ferramentaria, fôrmas e matrizes. Começou a surgir um grande incômodo que era a questão do artista ficar cada vez mais alijado pelo processo técnico profissional. As esculturas de grandes formatos na época da Escola foram reduzindo o tamanho e viraram objetos. Por falta de tempo e lugar comecei a fazer esculturas na minha oficina em casa, já que não dispunha daquele espaço do ateliê, e essa questão do espaço está diretamente relacionada à obra, escultura precisa de espaço, precisa conversar com o espaço. A arte é um processo de encadeamento de ações, temos que estar sempre fazendo e realimentar esse processo para criar de forma continuada. Durante muito tempo exerci a arte quase como diletante – apesar de que foi nesse período que fiz as primeiras exposições individuais de esculturas –, mas começou a me incomodar o fato de não ser artista, como prioridade, eu estava tentando ser. Tinha adquirido toda uma formação em arte e estava investindo quase a totalidade do meu tempo em outra área de trabalho. Isso me incomodava profundamente e resolvi ser professor da Escola de Belas Artes. Seria a solução de trabalhar, ganhar a vida, e de estar em contato com o universo da arte. Porque até então - e hoje ainda continua assim - não existe um mercado de arte em Belo Horizonte, quer dizer, existe um mercado, mas é muito restrito, é uma luta colocar o seu trabalho no circuito e poder viver desse trabalho. A minha alternativa foi a carreira acadêmica. Sou apaixonado - e grato - pela Escola de Belas Artes, adoro aquela convivência que para mim é muito cara. Decidi pela carreia de magistério e isso se tornou uma meta. Sempre trabalho com metas, minha vida toda foi pautada nesse sentido. Só que nesse caso não dependia somente de mim dar aulas, dependia de vagas. Quando surgiu a oferta fiz o concurso e fui aprovado em primeiro lugar. Entrei como professor, mas fiquei como substituto por quase dois anos. Em setembro de 1992, fui efetivado e aí foi o grande momento, quando iniciei um trabalho diferenciado de escultura dentro da escola. Foi uma nova fase, uma nova etapa que desencadeou processos muito interessantes e importantes: a experiência didática, a relação da escultura com o meu processo de criação e com o processo de reflexão sobre a arte. Com a experiência do ensino houve um salto considerável na minha relação com a arte, a escultura, o espaço e as pessoas. Aqui retomo aquela questão da importância de cada momento na vida. Aquela grande frustração de ter perdido a convivência da escola foi substituída pelo vigor de um novo momento na possibilidade da relação com os alunos. Acredito que a relação de professor e aluno é uma via de mão dupla onde se aprende e se ensina, principalmente na arte. Dessa forma procuro passar informações, abrir portas e criar oportunidades o máximo que posso. Ao mesmo tempo estou em convívio pleno com toda uma energia criadora, nova, vigorosa, nascente, é onde o novo acontece. Descobri durante a minha experiência que a escultura tem uma relação muito próxima com o coletivo, enquanto a pintura era uma total introspecção, a escultura me obrigava a estabelecer contatos com o outro e isso me encantou profundamente. Comecei a pensar em trabalhar uma obra coletiva, em desenvolver um trabalho onde não só a necessidade da ajuda do outro, mas a presença do outro no processo criativo fosse fundamental. Como professor tive condições de executar essa idéia e em 1992 iniciei as primeiras experiências de trabalhos coletivos.

 

Texto extraído do depoimento do artista, publicado no livro Fabrício Fernandino Circuito Atelier, Belo Horizonte, Editora C/Arte, 2007, p. 11 - 14.

Entrevista realizada em 2007 tendo como interlocutora
Jacqueline Prado de Souza.