
|
As últimas pinturas de Eymard Brandão impoem uma imagem: luta permanente com a superfície, só amenizada por "irrupções" de afetividade e lirismo. Sobre a aspereza de ranhuras explícitas, construídas por sucessivas aplicações e raspagens de camadas de tintas, formas (ou restos de formas), cores (ou lembranças de cores), símbolos (ou sugestões de símbolos), dão corpo a um discurso ostensivamente plástico. O princípio básico da ordenação é simples: por trás de cada elemento sempre existe um outro, em progressão infinita. Trabalhando superfícies muitas vezes ao modo de um pintor de paredes, o artista nos traz o tema da memória da cor, onde resíduos coloridos criam ritmos tensos e urbanos. Em contato com estas imagens, a vontade é recusar toda referencialidade, deixando a visão aberta apenas para o combate do pintor com a forma, matéria e linguagem "per si". Brandão bloqueia percepeções estritamente formais de sua obra, afirmando o interesse pela beleza no ato de pintar e raspar, construir e destruir, esconder para então revelar.
Walter Sebastião. In: Catálogo da exposição Eymard Brandão, Kolams Galeira de Arte, Belo Horizonte, 1999. |