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"Lecionar sempre foi para mim algo prazeroso, lembrando que arte não se ensina, no sentido em que a palavra é comumente entendida, sendo uma experiência a ser compartilhada nos dois sentidos. O chamado professor leva ao interessado práticas e informações teóricas que vão atuar no desenvolvimento do potencial existente no artista iniciante. Caso contrário, bastaria à pessoa freqüentar uma biblioteca, estudar na vastíssima literatura que existe a respeito e estaria tudo resolvido. É uma área atípica. Dizer: vamos agora criar de oito até as dez horas com tinta e, depois, de dez ao meio-dia com lápis, é mentira. Por razões semelhantes é que muitas regras criadas pelas escolas podem ser desrespeitadas. Acredito, também, que a atividade do magistério é vinculada ao trabalho realizado pelo artista em sua trajetória. O professor que não desenvolve e pratica seu próprio potencial como artista, não poderia trabalhar na relativa formação de outros artistas. E essa história de arte-educação é estranha, pois não é somente a arte que educa. O nome educação estétia soa melhor. Temos atualmente muita teoria e pouca prática. Existem inúmeras salas para assistir aulas, mas nenhum ateliê para FAZER arte, numa estrutura que, para ser reconhecida, adaptou-se a padrões nem sempre coerentes com aptidões específicas. Seria interessante que algumas instituições introduzissem no seu currículo a cadeira "desistência". Os professores dessa matéria teriam a função de fazer os alunos desistirem do curso. Aqueles que insistissem em continuar, teriam algo importante para fazer e, provavelmente, nunca precisariam de um papel chamado diploma.
Encontrava-me naquele ponto cíclico de ter esgotado uma fase e não saber como dar o próximo passo para a fase seguinte. Fazia tentativas que não davam certo e um dia raspei um desenho exasperadamente, pensando: vou estragar tudo de uma vez. As marcas luminosas deixadas involuntariamente pela borracha na superfície negra, feita com o pó de grafite, mostraram uma nova linguagem surgindo. A solução encontrada. Desenhar e desmanchar, duas faces da mesma moeda, e a passagem do figurativo para a abstração. Formas destruídas com a borracha e outros materiais deixavam na superfície trabalhada uma nova memória do desenho anterior."
Eymard Brandão: depoimento. Coleção Circuito Atelier. |