Obra de Fani Bracher cresce na reiteração de seus temas

A pintora Fani Bracher faz uma exposição marcante na galeria Pace. Discrição e desconforto pareciam emoldurar a mostra. Havia um mal-estar. Em torno do tema anunciado, surgiram controvérsias: a artista está pintando ossos, e os utiliza na construção de seus objetos, que têm a forma de caixa. A galerias Leila Pace assumiu o desafio, já que não poucas pessoas a alertaram sobre riscos, no momento em que o mercado exacerba as relação entre o sofá e o quadro.

É preciso ver a exposição para nela constatar um momento forte na obra de Fani Bracher. Antes dos ossos, renovam-se, revigorados, os temas de sempre Árvores e nuvens narram um trabalho que cresce e se afirma, de modo fascinante. A pintura deve ultrapassar sua temática para alcançar a essência dos valores picturais. Lembrando as garrafas onipresentes na obra do pintor italiano Giorgio Morandi, eu diria aqui as árvores de Fani. O fruto dessa árvore é pura pintura. De temas aparentemente simples nasce a grande arte.

Árvores, nuvens, montanhas e escadas atravessam as imagens da artista, desde o princípio, demarcando fases. A evolução se processa a partir dos mesmos elementos. Copas de árvores viram nuvens, raízes geram montanhas, morros se transformam em escadas, que voltam a ser nuvens, serras, degraus, árvores. A pintura avança, depurada, madura, plena. O diminuto vocabulário, tal como no mestre Roberto Gil, é fonte inesgotável, mas pode engendrar variantes.

Os ossos apareceram provavelmente como variação de troncos, caules e raízes. É o que se vê a partir da série reunida. Um buquê de ossos remete a um vaso de copos-de-leite da fase anterior. Ossos irrompem na paisagem como trancos. Esses fêmures parecem referir fustes e falas. Podem traduzir variadas sugestões que terão conduzido a pintura a sua forma, a começar pelo osso em si. Descendem de árvores e aspiram a nuvens. No entanto, mais configuram uma experiência.

Indiferentemente à perturbação causada pelo ossário, que em superfície maior chega a compor um rendilhado à maneira de jóia antiga, a pintura de Fani Bracher permanece em diálogo com a tetralogia original. Árvore, montanha, escada, nuvem. Os ossos seriam, assim, menos mórbidos do que troncos ou nuvens. São formas que a autora quer experimentar, atraída pela morfologia ainda que vivencie até sensações não verbalizadas. É nesse ponto que se entrega aos objetos e faz as caixas talvez em clima de catarse.

Importa reconhecer que Fani Bracher continua a criar uma grande pintura. Formas limpas, fortes, e cores dramáticas compõem as paisagens carregadas de tensão e silêncio. Os tabus se desvendam. Pode haver mais impacto numa árvore que num osso. Ao lado dos ossos, esses trabalhos parecem chamar de volta a autora às suas garrafas morandianas. Nem ela saberá se os ossos irão exigir-lhe mais. É certo, porém, que sua pintura alcançou ponto sem retorno, cobrando-lhe, esta sim, uma atitude radical diante de circunstâncias.

Ângelo Oswaldo de Araújo
Obra de Fani Bracher Cresce na Reiteração de seus Temas.
Estado de Minas, Belo Horizonte, abril de 1997.