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O trabalho do pintor Fernando Lucchesi ilumina a idéia de aparato cenográfico. Supera e ultrapassa os conceitos de "instalação" em favor da montagem de espaços nos quais pinturas e objetos instauram ambientes e comunicam, de modo autônomo, sempre mais que parecem propor. É que, sendo obras autárquicas, procedem de fonte que insiste em recuperá-las, reintegrando-as, em irrecusável articulação, no espaço plural de uma trama cênica. Assim, caixas viram oratórios, que se transformam em armários, por sua vez alçados à condição de máquinas dramáticas em meio à conjugação de elementos em inquietante sintonia. Pinturas demarcam territórios e projetam novas dimensões povoadas de matéria outra, em contraponto. Conferem ritmo ao jogo espacial que encenam, enredando objetos na órbita de suas vibrações formais e cromáticas. Mais que instalações, os cenários de arte de Lucchesi vêm aprofundar o colóquio entre pintura e objeto. A teatralidade dos recintos e a possibilidade de contínua reinvenção instigam a obra. O pacto cenográfico que envolve o artista e o desempenho de sua produção teria levado esse processo de metamorfoses a desdobrar latas em oratórios, armários em ermidas, assemblages em retábulos, erguendo capelas e catedrais referidas na construção de espaços. Nesse campo em que se fundem sagrado e profano, novo e tradição, um inusitado e fascinante objeto passa, agora, a descrever parábolas. A esfera armilar aparece como o motivo central de uma fase em que Fernando Lucchesi se viu, como afirma, chamado pela lembrança da primeira chama. Nas armilas que reproduzem a esfera celeste, com seus meridianos e paralelos, "velas a(s)cendem o fogo da fé", ainda segundo palavras do artista, que se sente tocado pela "luz que afasta a escuridão", em atmosfera perpassada pelo "cheiro da morte" e transcendida pelo "brilho divino". Outra vez o trabalho de Fernando Lucchesi incide sobre resíduos da ancestralidade, promove a apropriação de signos no eixo de operação que detona manifestações de singular carga simbólica. Velas revelam os fogos do logos. Inspirada no vôo das estrelas, desvela-se a astronomia do mito. Depois dos templos surgidos de restos do cotidiano, irradia-se a luz do grande embate: a chama da fé e o interdito da esfera. Globos em viagem sideral percorrem infinito mistério. Bússolas e astrolábios parecem guiar o intinerário do farol da circunavegação. O artista é um fazedor. Engendra seus objetos e os solta no espaço para que sejam fruídos. À volta dos frontispícios, há, hoje, uma esfera ardente que sinaliza a trajetória dos códigos. Ângelo Oswaldo |