Cerâmica, do grego Keramikós (vaso de argila)

O sentido restrito é esse: utensílio de uso caseiro. Mas o sentido amplo é ser capítulo grande na História de Arte, onde discursa, com talento e ciência, o Ceramista, artista que na Arte cerâmica debruça nela talento e sensibilidade. Matéria prima abundante, compostos inorgânicos não metálicos, quasi-que sempre óxidos mas também carbonáticos, nitrícos, boráticos, hidro-alumínio-silicatos, feldspatos e o mais, micro-divididos, recebem nos vãos a água amalgamadora, e tudo vira argila. Matéria-prima que o Ceramista abraça como matéria-amante prolongando nela o si mesmo, os dedos dançando-acariciando suave-sensualmente sobre, conduzidos por mão que tem truques de mágica, até as difinições. A arte do Ceramista é arte sem intermediário. Explico: o pincel é o intermediário do pintor, a prancheta é o do arquiteto, a talhadeira e camartelo são os do escultor, mas entre o Ceramista e sua argila existe nada além da vontade dele e da receptividade dela. E mais: o pintor preenche o vazio branco do suporte com o pigmento, o arquiteto rouba o vazio limitando-o com paredes, o escultor esvazia o inútil do bloco de pedra e faz restar a escultura. O Ceramista não: com o pigmento, o arquiteto rouba o vazio limitando-o com paredes, o escultor esvazia o inútil do bloco de pedra e faz restar a escultura. O Ceramista não: com a argila disforme nas mãos, pelas mãos ele reforma a forma e forma a cerâmica. E ainda mais: uma pintura pronta é o quadro pronto, um edifício fica pronto quando termina, a escultura apronta-se de repente, mas o Ceramista não: tem a parceria do sol que seca, e aí tem o forno que coze, queima, incendeia para a aparição final das escondidas impregnações metálicas reveladas em cores não sabidas. E da bocarra dele emerge a peça re-talhada pelas dentadas do fogo, varada "pelo fino dardo da chama", marcada por "rupturas, gretas, grutas abissais" que o calor do inferno criou como quis. Quando se aprendeu cerâmica, se fez dela o continente de grãos e líquidos para a sobrevivência; depois, se fez o fornilho do cachimbo para o devaneio do ócio; depois, se fizeram as próteses para correções de traumas irrecuperáveis; depois, se revestiu cápsulas espaciais para resistirem a agressão cósmica; depois, veio a alquimia nova dos supercondutores que alteraram as leis da Física. Mas desde sempre os Ceramistas fizeram-na Arte; desde quando na pré-história não escrita do Neolítico o homem evoluiu a Homo ceramicus, saído da condição caçadora e nômade, estabilizado socialmente pela agricultura, sobrevivendo não mais da caça incerta mas vivendo do grão certo da colheita farta; o excesso da messe precisou de preservação e o sobejo foi preservado nos potes, buracos feitos no ar limitados pela plástica parede de argila quimada em cerâmica. E minha fantasia vê estes homens agrícolas e já Cemaristas (desde a ponta de cá da Eurásia até sua ponta de lá, e na América pré-colombina, e nas áfricas e nas austrálias), acocorado na frente de suas peças, alimentando o irresistível anseio de descobrir formas novas para cobrir-lhes de riscos-traços-linhas- faixas-vermelhas-ocres nas superfícies alisadas, transformando um utilitário singelo em coisa bela, em utilidade transcendental. É bem bom perceber a semelhança entre os formatos e a decoração que a gente vê nessas cerâmicas do mundo antigo nos museus antropológicos, tanto quanto é bem bonita a emoção que a gente tem em gostá-las, que é quando se fica um pouco Ceramista também. As civilizações históricas de pirâmides foram ricas em rica cerâmica; o oriente de branco e fino caulim ainda mais, mas a primeira referência grande são as civilizações do Egeu que levaram-na às alturas olímpicas na decoração de ânforas, crateras, hídrias, cálices, eloqüentes como a sua literatura, lúcidas como sua escultura e equilibradas como sua arquitetura. A iconoclastia paleo-cristã não gostou da cerâmica decoradora; só no Gótico ela voltou a ser praticada, para alçar outra vez a alturas na Arte do Renascimento para frente vindo até a atualidade de hoje. E ao chegar no tempo de hoje, chego no tempo de Hélio Siqueira, Ceramista maior que tem o ativismo mineiro de escavar as superfícies não mais à cata de ouros e diamantes, mas buscando a argila das Gerais para transformá-la em outras riquezas. Uma fina pessoa de Ouro Fino que Uberaba adotou com gosto (ou foi o vice-versa?). Pintor mariscador de exposições e conquistador de premiações, saiu das tintas e aventurou-se na escultura dos fios fazendo tecelagem "... resgatando e enriquecendo com novas descobertas, o paciente ato de tecer... nos teares mineiros de Baixo Liço", cuja técnica dominada resultou em "... peças criativas e surpreendentes", fazendo de sua oficina "... um ponto alto no roteiro turístico de Uberaba". Irriquito na produção artística, enfrentou a cerâmica e se fez Ceramista, logo conquistando "... a força telúrica do barro...". Vi com gosto a cerâmica do Hélio nas visitas ao Triângulo Mineiro atendendo aos convites de Cléa Jabur e Elizabeth Nasser. E desde logo recordou-me Rodin a quem Constant, nas aulas de modelagem, ensinou: "... nunca veja as formas como superfícies, mas sempre em profundidade. Considere uma superfície somente como uma extremidade de um volume - como a ponta, maior ou menor, que volta-se para você". Rodin acatou e fez da lição direção de seu trabalho, concluindo mais tarde que "a verdade das minhas figuras, ao invés de ser superficial, expande-se de dentro para fora, como a própria vida". Quando deixou sua mensagem testamentária ao futuro, exortou-a que os artistas da tridimensionalidade não esquecessem que "... Toda vida surge de um centro, depois germina e desabrocha de dentro para fora. Do mesmo modo, na boa escultura, adivinha-se sempre um poderoso impulso interior". Assim eu vi a cerâmica do Hélio. Sua argila, gestada adentro da superfície, e da profundidade arrancada para fora, pelo impulso interior dele o Ceramista, foi pegada, ajeitada, deitada, umedecida, possuída e, feto hígido gerado, avolumou-se "... de dentro para fora, como a própria vida...". Por parto louco as figuras apareceram, ícones sagrados que deram a Condorhuasi a vontade de dizer o que disse: "Loucuras de Hélio Siqueira. Santas loucuras de una vida, de un Camino señalado por el Destino. Massas, massas, impregnadas de ideas no pensadas, sino surgidas de un Centro de Poder mágico, del sueño de las piedras". E queném Henri Rousseau que sentia medo das florestas e dos bichos delas que pintava, sinto que Hélio sentiu religião nas obras imagens moldadas, dispondo-as como adros das suas Minas Gerais. E orou neles com elas nos "TERRITÓRIO DE LOUVOR E GLÓRIA" que inventou. Depois dos "Piões" da premiada Bienal de Santos (SP-1995), rodopiados na sua cabeça pela primeira investida exposta da cerâmica, as imagens totêmicas cercadas de ofertórios santificaram a sua LOUCURA... Palavra final? Uma só é pouca e pequena. Apropriado é o neologismo do catálogo da Grande Galeria do Palácio das Artes, Belo Horizonte:

HÉLIO É CESTAS PÃES COROAS PRATOS SANTOS POTES GALINHAS MORINGAS ESCULTURAS CASTIÇAIS PEIXES CÂNTAROS MADONAS BILHAS SANTOS TODOS NÓS

Eu, por mim, só escrevo um acrescentado, o meu finalmente:

HÉLIO É CERAMISTA

Decio Cassiani Altami. In: Catálogo da exposição Santas Loucuras, mostra itinerante, Uberlândia, Uberaba, Ituiutaba, 1998.