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Marília Andrés RibeiroNo presente texto procuraremos compreender a modernidade da obra de Jarbas Juarez, artista mineiro que atua em Belo Horizonte desde meados dos anos 50. A razão da nossa escolha se justifica porque esse artista desempenhou um papel significativo enquanto ator que estabeleceu a ligação entre a geração Guignard nos anos 50 e a nova geração de artistas que emergiu em Belo Horizonte nos anos 60. Jarbas Juarez viveu intensamente o momento de transição entre o modernismo da Escola Guignard e as propostas experimentais da neovanguarda, momento de mudança nas concepções artísticas, políticas e comportamentais do homem contemporâneo. Sua participação ativa nesse contexto de transformação social levou o artista a revelar as contradições da modernidade em seu trabalho e também em suas reflexões sobre o próprio ofício. Seu discurso frente à Guignard nos mostra com lucidez a verdadeira dimensão do mestre. Ao mesmo tempo em que desmistifica o culto de Guignard e suas implicações com a mineiridade, valoriza a firmeza e a liberdade de criação que lhes foram proporcionados pelos ensinamentos desse mestre. Vejamos em primeiro lugar os depoimentos de Jarbas Juarez , que nos possibilitaram esclarecer a ambigüidade de seu pensamento artístico diante do mestre Guignard: Quero romper de uma vez por todas, definitivamente, as amarras com uma pintura mineira, com um ´estilo mineiro` de pintar ou de desenhar. Romper principalmente com a herança de Guignard e tudo aquilo que se liga à obra do mestre: Ouro Preto, o desenho limpo feito a lápis duro, as paisagens líricas de Minas, seus retratos. Para os artistas jovens, de formação recente, ou os que ainda vivem sua fase de aprendizado, Guignard é um fardo tão pesado quanto nossas cidades históricas, o barroco mineiro. Guignard inibe, Guignard é um limite. (1) Esse depoimento foi prestado ao crítico Frederico de Morais para o Jornal Estado de Minas em dezembro de 1964, ocasião em que Jarbas Juarez recebeu o 1º Prêmio de pintura do XIX salão Municipal de Belas Artes de Belo Horizonte. Neste momento, o artista assumiu publicamente seu rompimento com os ensinamentos de Guignard e partiu em direção às propostas das neovanguardas, abandonando o lápis e o pincel, materiais que considerava tradicionais, e substituindo-os pelas pesquisas experimentais com materiais insólidos sobre tela preta. Mais tarde, já nos anos 80, Jarbas Juarez fez uma outra declaração onde reconheceu o valor dos ensinamentos de Guignard, fontes de seu gosto pelo desenho e de sua liberdade de criação artística. Com muito humor, o artista nos conta como foi essa redescoberta do olhar de Guignard: Desenhando certa ocasião em Sabará, Guignard aproximou-se e olhou para meu desenho. Perguntou por gaiolas, janelas e ciprestes. Respondi-lhe que não via nada daquilo em minha frente – Olhe! Mostrou-me tudo aquilo ao meu redor. Tire dali e coloque no seu trabalho. Assim fiz . Naquele dia eu percebi o que era ver. Joguei minha viseira fora e descobri novos mundos que iriam enriquecer-me no meu eterno aprendizado. (2) Surpreendente nos depoimentos de Jarbas Juarez é a sua mudança de tom, sua prontidão em questionar e negar tudo o que foi dito antes, e sua capacidade de assumir as novas possibilidades artísticas, expressando as múltiplas transformações da modernidade. O exemplo de sua trajetória artística evidencia essa busca constante de diferentes meios de expressão, durante estes 30 anos de atividades no campo da produção artística e do ensino de arte. Desde seus primeiros desenhos dos anos 50 e início de 60, quando experimenta as possibilidades do lápis duro e do nanquim, explorando as texturas dos Bichos e Monstros e também a linha pura das Mulheres e Anjos, Jarbas Juarez já mostra com segurança a convivência entre duas tendências: a vertente expressionista que leva ao imaginário de um Grassmann e um Goya, e a vertente construtiva na linhagem de um Guignard ou um Picasso. Como apontou o crítico Olívio Tavares de Araújo, por ocasião da exposição do artista no ICBEU de Belo Horizonte em julho de 64: A presente exposição de Jarbas Juarez é antes de mais nada um exemplo de excelente desenho, puro e simples, no sentido químico dos termos, tal como se apresenta o gênero hoje em dia, depurado de elementos plásticos herdados da pintura ou formalmente imitativos da gravura. Independente, autônomo, seguro de si e de suas próprias possibilidades técnicas. (3). Os anos 60 são marcados pelos trabalhos experimentais voltados para a pesquisa das técnicas mistas, objetos, assemblages e ambientes, aproximando o artista das experiências da Nova Objetividade Brasileira, do Novo Realismo europeu e da Pop Art Americana. É o momento da descoberta da arte povera usada nas Composições em preto, que lembram as experiências com sacos de Alberto Burri, e também, das apropriações ambientais nos salões através dos Varais dependurados com meias e soutiens, a exemplo das calças de Jim Dime. Época dos Ideografismos que levam de encontro aos ícones orientais e do protesto contra a guerra estampado na série sobre o Vietnã. Esta atitude vanguardista culmina com a construção de enormes esculturas de sucata que representam Máquinas e Matadouros, e remetem às máquinas autodestrutivas de Jean Tinguely. Nesta época, Jarbas Juarez é muito premiado pela ousadia de suas propostas e se insere no panorama da jovem arte brasileira, iniciando também sua participação nas Bienais de São Paulo. Já na década de 70, o artista concentra-se no desenho, esgotando as possibilidades da representação da figura em linha pura, e inicia suas pesquisas com a pintura, em torno da temática do Café. Jarbas Juarez retoma imagens de sua infância, em Nepomuceno, terra do café no sul de Minas, e pinta os Cafezais, as Panhadeiras de café, o trabalho nas lavouras e os terreiros de café. (4) A retomada da pintura em Jarbas Juarez marca seu reencontro com a tradição da pintura ocidental em suas múltiplas vertentes: do naturalismo das figuras de Vermeer à deformação das mulheres de Modigliani; das composições paisagísticas de Portinari aos esquemas estruturais de Cèzanne; do colorido vibrante de Matisse à expansão pictórica de Barnett Newman. Esta década é marcada por sua primeira grande exposição retrospectiva no Palácio das Arte em Belo Horizonte, que mereceu a excelente análise crítica do curador Márcio Sampaio. A propósito do “Café: a essência de um mundo”, escreveu o crítico: Ao trabalhar este tema, Jarbas Juarez interessou-se mais pelos seus aspectos visuais propriamente ditos. Destituiu-o dos apelos dramáticos do compromisso social para interpretá-lo ao nível de pura visualidade: o que mais importa é o processo criativo: o tema é mais a pintura, o desenho ou a gravura. De início, é verdade, interessou-lhe muito a interpretação lírica da paisagem e das cenas, a presença da gente no campo, quase sempre a mulher (as mesmas mulheres que ele desenhara antes e que agora são as ‘panhadeiras de café’), a interpretação de certos costumes e usos da região (naturalmente evitando o mero folclórico) e a composição a partir da forma dos objetos típicos da cultura. Mas o processo de aprofundamento do tema levou Jarbas Juarez a buscar uma saída – sem dúvida coerente – no sentido da simplificação da paisagem, cada vez mais importante no contexto de cada obra. Desaparecendo a figura humana, gradativamente os planos da paisagem emergiram; os elementos da paisagem – os cafezais ou os terreiros de secagem de café – são os de maior interesse, impondo a sua própria geometria. A cor e a textura finalmente, como forma, se tornaram a realidade mesma do quadro. A síntese construtiva da paisagem chega a tocar os limites da figuração – restam agora apenas alusões à paisagem, á realidade do mundo objetivo. Mas que os rigores de uma geometria, toda a sua expressão nasce como equilíbrio de forças, em que a forma está gozando a sua plenitude na sociedade de formas, vividas pela experiência e pela sensibilidade. A pintura (ou o desenho) é o quadro, e toda a sua realidade: uma realidade que o artista construiu com seu sangue, coma projeção de toda a sua experiência de vida, que a arte, aqui, presentia, enriquecida e contagiante. (5) Finalmente, na década de 80, Jarbas Juarez continua suas experiências com a pintura e o desenho construtivos, buscando cada vez mais a depuração formal, que remete o artista ao encontro à estrutura clássica, como ele próprio reconhece em seu memorial: Sempre me preocupei com o suporte estrutural que as obras dos grandes mestres escondem por detrás das camadas pictórias. Por isso mesmo, há anos venho tentando resolver a composição de meus quadros utilizando linhas auxiliares, simples demarcação, até chegar a uma estrutura matemática tendo o segmento áureo como base. (6) A ambigüidade que perpassa a obra de Jarbas Juarez nos revela as multifacetas de sua produção artística também nos anos 80. Ao mesmo tempo em que trabalha na execução de um desenho geométrico impecável e busca a estrutura da composição espacial em harmonia com as cores, o artista propõe situações de denúncia social intervindo criticamente nas ruas da cidade através dos ‘bonecos’ elaborados com sucatas. Estes bonecos, criados inicialmente com uma função didática, são uma retomada das propostas vanguardistas à exemplo das instalações de Edward Kienholz, que convidam o expectador-participante a refletir sobra as questões polêmicas do cotidiano como: o ensino artístico e a universidade brasileira, a violência do trânsito, da fome e do menor abandonado, e o próprio drama da condição humana. Mais uma vez transparece no trabalho artístico de Jarbas Juarez a convivência entre a vertente construtiva e a vertente expressionista, tendências presentes na modernidade artística. A preocupação em inserir-se no debate político e social do mundo contemporâneo se alia à sua dedicação ao ensino das artes, seja na Escola de Belas Artes da UFMG onde leciona Desenho, seja no Museu de História Natural, onde ensinou Educação Artística às crianças da periferia, aos menores abandonados da FEBEM e às professoras de 1º e 2º graus da rede municipal. Suas aulas são verdadeiros exercícios de experimentação e um convite à descoberta da criatividade artística de cada indivíduo. Ao concluir este breve texto, entendemos estar contribuindo para esclarecer o significado exemplar da obra de Jarbas Juarez para a História da Arte Brasileira. Esta obra nos revela o artista e educador, que está constantemente experimentando as múltiplas possibilidades do fazer artístico contemporâneo, resultado de sua aguçada sensibilidade diante das transformações da vida moderna, e de sua experiência de viver intensamente as contradições da modernidade.(7) NOTAS(1) MORAIS, Frederico. ‘Jarbas Juarez: Guignard está morto’. Estado de Minas, Belo Horizonte, 6 de dezembro de 1964. (2) ‘A Arte inquieta de Jarbas’. Minas Gerais, Suplemento Literário, Edição Especial, nº 1.101, Belo Horizonte, Sábado, 02 de julho de 1988. (3) ARAÚJO, Olívio Tavares de. Desenhos de Jarbas Juarez Antunes, Belo Horizonte, 27 de julho de 1964 (Apresentação, Catálogo de exposição no ICBEU). (4) Jarbas Juarez Antunes nasceu em 15 de janeiro de 1936, em Conqueiral, uma pequena cidade do sul de Minas, filho de comerciantes. Viveu sua infância em Nepomuceno e aos 19 anos de idade transferiu-se para Belo Horizonte. Freqüentou a Escola Guignard de 1957 a 1960 e teve como mestres, além do próprio Guignard, os seus primeiros ex-alunos, Maria Helena Andrés e Vicente Abreu. Foi contemporâneo de Álvaro Apocalypse, Eduardo de Paula e Yara Tupynambá, e considerado o mais jovem da Geração Guignard. (5) SAMPAIO, Márcio. Café – Jarbas Juarez, Palácio das Artes, Belo Horizonte, 12 de agosto à 7 de setembro de 1978 (Apresentação, Catálogo da exposição). (6) ANTUNES, Jarbas Juarez. Memorial, Escola de Belas Artes da UFMG, 1990 (inédito). (7) Esse texto foi publicado nos anais do IV Congresso Brasileiro de História da Arte, promovido pelo Comitê Brasileiro de História da Arte e organizado por Blanca Brites, Icleia Borsa Cattani e Msria Lúcia Bastos Kern, em Porto Alegre, em 1991, pp 127-132.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICABERMAN, Marshall Tudo o que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. São Paulo, Companhia das Letras, 1986. |