Jarbas Juarez - depoimento 

 

O desenho está na base do seu fazer?

O desenho é a base de tudo, pois só posso manifestar meus pensamentos e idéias através da forma mais simples que existe, que é a linha. Essa linha cria as imagens da minha visão do mundo e é ela que me dá sustentação na pintura, na escultura ou na ilustração. Tudo é desenho.

Amilcar de Castro dizia: “desenho é linha e acabou”. Portanto, não importa se ela é elaborada com um traço da finura de um cabelo ou da largura de uma tábua, linha é linha. É claro que, dependendo da ação do artista, a linha gera significados diversos, demonstrando espontaneidade ou agressividade, mas tudo passa pela linha. Portanto, quem deseja se envolver com arte tem que gostar de desenhar, ser artista é desenhar, desenhar e desenhar. Essa é a base de tudo.

Os primeiros trabalhos que fiz são de linha, mas isso não quer dizer que se tratava de uma linha contínua, ao contrário, a linha me oferecia uma representação gráfica de texturas e sempre com muita liberdade.

Desde o início desenho bichos porque essa era a minha infância. Quando criança gostava de criar animais, construía bichos de sabugo e adorava caçar passarinhos. Quando começo a desenhar, a primeira vontade é fazer um bicho. Em meus desenhos antigos os bichos não têm patas; hoje faço as patas porque acho que ajuda a compor.

Então continuo desenhando usando nanquim, lápis 10H, lápis aquarelado e broca elétrica. Esta última é um instrumento que uso para fazer texturas desde 1967, num procedimento muito próximo ao do dentista que usa a broca para desgastar o dente. Eu utilizo a broca para desgastar o papel; para isso tenho que trabalhar com um papel de boa qualidade, caso contrário a broca fura. No princípio perdi muito tempo exercitando o manejo da broca em pequenos pedaços de papel. Quando percebi que fazia texturas sem deixar que o papel furasse comecei a utilizar no meu desenho e venho fazendo isso há quarenta anos.

Hoje, no entanto, meu desenho é muito minucioso, requer muita atenção e cuidado. Trata-se de um desenho limpo. Para isso, tem de existir uma organização, a mesa deve estar limpa, as mãos lavadas e com talco, o papel no lugar certo e nada pode encostar porque o trabalho é sagrado, nesse momento tudo está voltado para ele. O meu trabalho é estudado e pensado, tudo parte de uma pesquisa do desenho para a idéia e a partir dela faço qualquer coisa. Esse é o meu critério.

Jarbas Juarez: Depoimento. Circuito Atelier.  Belo Horizonte: C/Arte, 2003, pp. 12-15.

 

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