Jorge Luis dos Anjos
A arte africana influenciou fortemenete
a modernidade européia no início do século. A
obra de Picasso refere, de modo fascinante, os mananciais que levaram
muitos artistas como ele a armazenar informações e iconografias
em diálogo com antropólogos do porte do poeta Michel
Leirris, incentivador dessa aproximação.
As célebres Demoiselles de Avignon pintadas por Picasso devem
às máscaras do Benin a imagem insólita que as
transformou num dos ícones do século XX.
A produção de diferentes etnias negras passou a ser
vista, no Ocidente, não mais como expressão primitiva,
mas na condição de acervo inventivo e exuberante, tanto
quanto o patrimônio europeu. Em Washington, o Instituto Smithsonian
tem alargado o conhecimento dessas manifestações singulares,
ao ampliar o espaço das coleções da África.
E um dos mais importantes artistas norte-americanos da atualidade,
Martin Puryear, buscou nas raízes africanas reencontradas durante
um estágio em Serra Leoa as bases materiais e morfológicas
de uma escultura envolvente e inquietante.
No Brasil, o universo visual africano é uma das matrízes
sequestradas do fenômeno cultural. Encoberto pelas rupturas
e traumas que o ocultaram desde os primórdios da formação
nacional, ainda sugere pouco aos artistas. Rubem Valentim foi um dos
raros pintores a perseguir e resgatar essas fontes, nelas caracterizando
o vocabulário geométrico de sua linguagem concretista.
Na elaboração construtivista do artistas baiano Emanuel
Araújo, residente em São Paulo, podem ser iglamente
identificadas vertentes oriundas de novo olhar sobre uma herança
até recentemente interditada.
Jorge dos Anjos, mineiro de Ouro Preto, desenvolve propostas em desenho,
pintura e escultura a partir de signos africanos aos quais chegou
após rica experiência muito cedo iniciada em sua cidade
natal. Como artista negro, ele quebrou barreiras e atingiu um universo
inteiramente novo e aberto à sua criatividade. Poderia ter-se
limitado aos temas sugestivos da paisagem de Ouro Preto - cidade incluída
pela Unesco no patrimônio da humanidade -, que abordou com originalidade
nas fases iniciais de seu desempenho. No entanto, preferiu deixar
de lado conveniências e facilidades, a fim de ingressar no campo
em que todo artista tem que estar: o do desafio da invenção,
da linguagem própria e autônoma, do inconsciente que
enriquece a construção plástico-visual.
O poeta João Cabral de Melo Neto disse certa vez que enfrenta
dificuldades enormes quando escreve, desacreditando de quem não
se debruça e assume o trabalho braçal da poesia. Assim
como o poema, a pintura e a escultura dependem radicalmente da experimentação
permanente, aquela que elimina o artificial e o desnecessário,
conquista as circunstâncias e abole influências acríticas.
O que Jorge dos Anjos apresenta é o resultado da busca de uma
visualidade pessoal, capaz de viabilizar harmonia entre informação
cultural, organização construtiva e resposta estéticas
ao fazer artístico. O caminho foi vencido. Desenho, pintura
e propostas tridimensionais continuam a merecer a perquirição
de uma vontade alegre e corajosa de criar, que explode no frescor
mágico e sensual de cada trabalho.
A recuperação do grafismo africano na elaboração
de desenhos que acabam saltando para a escultura, em gesto de dança
pura, não codifica o artista. Assinala, antes, que Jorge dos
Anjos decifra enigmas para alcançar aquilo que se desdobra,
sob o impacto da fatura, numa expressão prazerosamente construída.
Do artesanato popular brasileiro, enraizado na África, materiais
e formas se integram numa obra que cada dia suscita mais interesse.
Os demônios, no maravilhoso afro, não são necessariamente
maus. Jorge dos Anjos solta os exus e libera o mito raptado. Ao som
de tambores que ecoam magicamente à volta do espectador, o
balé das silhuetas festeja o artista que ludicamente celebra
o rito maior da arte.
Angelo Oswaldo de Araújo Santos
(Publicado originalmente em: Catálogo de exposição,
Jorge dos Anjos - Esculturas, AM Arte Design, Belo Horizonte e 999
Studio, Rio de Janeiro, 1995)