JORGE Luís DOS ANJOS

OBRAS INÉDITAS
O olhar diferenciado sobre o cotidiano se constitui em fonte de inspiração para as obras do mineiro Jorge dos Anjos. As inovações partem do espaço do próprio ateliê — instalado no bairro São Francisco, na região da Pampulha, em Belo Horizonte —, cujo portão ostenta uma fechadura semelhante a uma escultura. Até mesmo clarear o ambiente exige criatividade, traduzida na luminária de cores vivas que é uma verdadeira obra de arte. As idéias e o trabalho, hoje espalhados pelas paredes, gavetas e pelo chão, surgiram ainda na infância, restritos à pintura e, aos poucos, foram criando novos ângulos e ousados contornos na tridimensionalidade.
Agora, Jorge dos Anjos surpreende e, depois de 10 anos sem expor na técnica pictórica, apresenta 14 obras inéditas, em acrílica sobre tela, medindo 50 cm x 50 cm e 100 cm x 22 cm. Os trabalhos podem ser conferidos e adquiridos pelo internauta, exclusivamente, na galeria virtual do site da C/Arte. "Estas novas séries são um esforço para voltar à pintura, que passa a ficar próxima da linguagem das esculturas. É um trabalho mais limpo, construtivista", afirma.
As recentes obras chamam a atenção pelo uso da cor, com destaque para a exploração dos diversos tons de verde, vermelho e azul, e pela maneira como o artista constrói e organiza o espaço na tela. Para este ano, Jorge dos Anjos promete dividir o tempo entre a pintura e a escultura. "Minha idéia para um novo trabalho é recortar as figuras e colá-las na tela, dando uma impressão de estarem vazadas", planeja. Além das pinturas, a página da C/Arte abriga placas, em pequeno e médio formatos, produzidas em chapas de aço, obras inéditas de Jorge dos Anjos, e conta com as tradicionais esculturas, inspiradas em símbolos da cultura negra.

INÍCIO NA ARTE
Os primeiros passos de Jorge dos Anjos em direção à arte foram dados ainda na infância, através de pinceladas, incentivadas pelo pai, "Seu Olinto". "Com sete anos eu já sabia o que queria da vida: ser pintor", lembra. O reconhecimento veio com o concurso de desenhos, disputado por alunos das instituições de ensino de Ouro Preto, no qual arrematou um jogo de dominó.
A habilidade do garoto, cada vez maior, chamava a atenção dos professores da Escola Estadual Thomas Antônio Gonzaga, onde cursou o primário; e os pedidos para ficar depois das aulas copiando em grande formato as figuras dos livros, como os de ciência, tornaram-se freqüentes. "Não havia muitos recursos na época. Para explicar a matéria era preciso ilustrar por meio de desenhos", conta.
Entusiasmado com o talento de Jorge, "Seu Olinto" levou o filho, então com oito anos, a iniciar um estudo de pintura, todos os sábados, com "Zé Baixinho", um ilustrador de Ouro Preto. "Gostava de arte e se não sabia alguma coisa, me metia a fazer. Sempre tive algo intuitivo", diz.
Aos 11 anos, apesar de ter boas notas para dar continuidade aos estudos, o pequeno artista preferiu freqüentar o Curso Complementar Renné Gianetti, criado em Saramenha, bairro da periferia de Ouro Preto, onde morava, como reforço de dois anos do primário. "Interessei-me pelas oficinas, realizadas todas as tardes. Aprendi a fazer tapetes de sisal, artesanato em couro, pedra-sabão e metal", recorda.

ESTUDOS NA FAOP
O anúncio da abertura de vagas na escolinha de arte criada por Nello Nuno e Annamélia, dois expoentes das artes plásticas em Minas Gerais, mudou a vida de Jorge dos Anjos. "Vi o cartaz em Ouro Preto e, ao chegar em casa, falei para meu pai que queria fazer o curso", diz. O garoto passou a assistir as aulas do ginásio, hoje ensino fundamental, no turno da noite, e a se dedicar à verdadeira paixão durante o dia. Nesta época, a escolinha, segundo Jorge dos Anjos, havia sido incorporada pela Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop).
A inspiração para os desenhos vinha da paisagem de Saramenha. "Sempre gostei de retratar o meu entorno e Nello me incentivou a desenvolver este lado. Aprendi que poderia fazer poesia com pintura, contar minha história, e fazer desta técnica uma forma de expressão", declara.
Os temas do dia-a-dia ganhavam outra vida na mente do mineiro. "Não queria fazer paisagem para turista", diz. Ao invés disso, ele preferia pintar os burrinhos tropeiros, os pombos e as casas da cidade histórica, com antenas de televisão. Estes trabalhos foram expostos, na década de 70, no escritório de decoração Planin, em São Paulo, e alguns deles acabaram sendo vendidos.
Em 1975, o artista decide explorar a questão negra com mais profundidade e, para isso, usa as imagens e informações de revistas da África, emprestadas por um amigo. "Primeiro desenhei índios, mas Nello não gostou e disse para ir ao Xingú ou à África pesquisar sobre o assunto. Eu não tinha vivência suficiente para abordar o tema", afirma Jorge dos Anjos, que, na época, resolve abandonar temporariamente o assunto.
Na Faop, ele também conta com a ajuda e a crítica de outros mestres da arte brasileira, como Amilcar de Castro, responsável pelo aprendizado da noção de estrutura e composição, marca forte no trabalho dos dois mineiros. "Ele me deu os fundamentos, a régua e o compasso, como diz a música do Gil", brinca.

TRAJETÓRIA ARTÍSTICA
Em meados da década de 70, ao observar o retrato de um branco, pintado de preto, por Jorge dos Anjos, Nello Nuno constata que não tem mais nada a ensinar ao aluno. "Ele se vira para mim, diz isso e me convida para usar o espaço apenas como um local de criação das obras", lembra. Iniciam, assim, as mudanças radicais na vida de Jorge, que passa a morar em uma república de artistas, até se casar em 1977.
Um ano antes, ele produz três quadros sobre a descaracterização de Ouro Preto (tema em pauta na época), premiados no I Salão Nello Nuno. "As obras, juntas, contavam uma história. Era o caminhão chegando na cidade, atravessando as ruas e, depois, saindo de Ouro Preto com pedaços do barroco na carroceria", conta.
Os trabalhos seguintes vêm em forma de vasos de flores e figuras humanas, em preto e branco. "Era muito pesado porque minha vida estava um caos", lembra. No princípio, morava em uma casa com um grande espaço para pintar, onde retratava uma Ouro Preto de tons vivos. "O casario não importava muito e sim a cor", diz. Mas a falta de dinheiro obriga Jorge e sua família a se mudarem para uma casa menor. "Fiquei um tempo sem pintar com um objetivo traçado. Além disso, era complicado trabalhar com tinta devido ao fato de estar com criança pequena dentro de casa", lembra. A crise artística se agrava, levando o artista a buscar ajuda de um terapeuta em Belo Horizonte. "Voltei a me organizar e passei a desenhar as questões discutidas durante as sessões", relata. Do nanquim, em preto e branco, surgem demônios, igrejas e traços do barroco, formando uma mistura de diferentes símbolos, muito confusos, segundo Jorge dos Anjos. "Passei a simplificar, separando as idéias presentes nos desenhos. Não havia preocupação com a linguagem e sim com o que estava dentro. Nesta época, também surgiu a idéia de transformar as imagens em chapa, mas, por falta de infra-estrutura, não pude fazê-lo", recorda. A intenção era usar como matéria-prima tambores de óleo.

CULTURA NEGRA E ESCULTURA
"Sempre quis fazer uma pintura brasileira, integrada à questão negra." O objetivo de Jorge dos Anjos, não alcançado durante os anos de estudo na Faop, voltava à cena na década de 80. Decidido a se aprofundar no tema, ele viaja, em 1984, para a Bahia, com intuito de pesquisar o Candomblé. "Na religião achei os elementos negros que buscava", diz.
Na bagagem, de volta a Ouro Preto, também traz algum dinheiro obtido com a venda de desenhos para empresas do Nordeste. "Em Salvador, encontrei uma amiga, Wanda Guerra, que estava dando um curso para confecções e me convidou para participar. Fui e acabei vendendo meus desenhos para seis empresários do ramo", conta. O artista, no princípio, trabalha com a estética dos símbolos, se preocupando com a forma, mas, aos poucos, vai criando uma "grafia" própria ao juntar vários elementos da cultura negra. "Preocupei-me em não perder o sentido dos símbolos e, ao mesmo tempo, abrir espaço para outros significados", afirma. Nas obras não faltam menções a figuras como Exú, representada por pontas, tridentes e triângulos seguidos de outros, lembrando a ligação do céu com a terra.
Em 1987, Jorge dos Anjos passa a criar projetos para esculturas, realizados em papelão e, dois anos depois, resolve se mudar para Belo Horizonte, com objetivo de investir no trabalho, pois o campo de artes plásticas na capital é mais promissor do que em Ouro Preto. "As idéias estavam surgindo e eu precisava vê-las em aço. Pedi ajuda ao Eolo Maia (arquiteto) para montar parcerias com outros profissionais e viabilizar as obras. Ele me apresentou a algumas pessoas e, nos anos 90, fechei uma produção para um prédio de João Diniz (também arquiteto), no Santa Efigênia", lembra.
Esta fase marca o início dos convites que se desdobraram em obras espalhadas por espaços públicos, tais como: Monumento Zumbi Liberdade e Resistência - 300 Anos, na avenida Brasil, os painéis do Bahia Shopping, ambos em Belo Horizonte; e a escultura Via Urbana, na avenida Maestro Lisboa, em Fortaleza (CE). Os trabalhos do artista também podem ser conferidos nos livros "Visagens" (parceria com Álvaro Andrade Garcia, de 1998), "Revue Noire - Brésil - Afro-Brasileiro" (1996) e "Um Século de História das Artes Plásticas de Belo Horizonte", publicação da C/Arte, de 1997, lançada em parceria com a Fundação João Pinheiro.


Texto: Daniela Paiva Pacheco