Amadeu Luciano Lorenzato

Existe uma comovente e secreta dimensão da arte brasileira cuja aparição é sempre uma fonte de fascínio e de problemas: aquela composta de pequenos mestres, à margem dos “grandes” fluxos histórico-estéticos, cuja essência é um processo de singularização não apenas de uma linguagem, como ainda de uma história, pessoal ou não. Aparentemente deslocados no tempo e no espaço, assincrônicos na sua mescla de informações diversas, com graus diversos de autonomia intelectual em seus pontos de vista, estas visualidades não poucas vezes transbordam os parâmetros da tradição, exigindo visões menos lineares.
Fascinantes pela complexidade destes mundos tardiamente conhecidos, já que existe uma luta surda contra olhares marcados pela desconfiança, condescendência e preconceito; problemáticos, no sentido positivo, pelo que têm de embaralhamento e rasura de conceitos e tempos, pelo confronto que promovem com visões estereotipadas.
Um nome: Amadeo Luciano Lorenzato. Uma história: mineiro de Belo Horizonte, nascido a 1º de Janeiro de 1900, filho de horticultores italianos. Ao fim da 1a Guerra, transfere-se para a Europa com a família , onde permanece até aos anos 40.
Pintor por vocação, acompanhado por Cornelius Keesman, caricaturista holandês, empreende viagens de estudos por diversos países, em triciclo dormitório, apresentando-se como “étudiants d’art”. O roteiro: Viena, Budapeste, Bucareste, Sofia e Constantinopla, ao longo de 14 meses. Aos bombardeios da 2a Guerra é creditado o desaparecimento de suas primeiras obras. A crise social do pós-guerra, na Itália, é motivo de sua volta ao Brasil, onde passa a trabalhar como pintor de paredes. Um acidente de trabalho obriga Lorenzato a interromper esta atividade e a se dedicar, a partir daí, inteiramente à pintura.
A primeira exposição acontece em 1952, numa coletiva de primitivos. O mundo eleito: a paisagem da periferia de Belo Horizonte, a arquitetura rude dos bairros populares, alguns personagens que habitam este cenário, flores. Não faltam produções abstratas, contrapontos ao severo realismo vindo de hierárquicas composições marcadas pela estruturação geométrica, cor e texturas. Gradativamente, Lorenzato vai depurando seus signos, tornando cada vez mais concisa sua linguagem marcada pelo apego a ritmos visuais e aos valores da forma.
O resultado é uma pintura que, por provocação, se poderia considerar obra de um Cézanne selvagem, pela ênfase nas formas sólidas, na partilha dos planos ( de perturbadoras diagonais, linhas retas e onduladas), pela utilização de uma textura que explicita o signo pintura. Tudo é levado até os limites de um código, a indicar uma leitura estritamente visual da circunstância de seu autor, perfeitamente reconhecível no mundo que tem à sua volta. Lorenzato não reproduz esse ambiente, elege pretextos e os traduz, através da pintura, no que eles têm de absolutamente essencial.
Em Lorenzato, antes de existir a apresentação de uma imagem, há a sugestão de uma arquiimagem – contemporânea e assustadoramente remota – fundamento de percepção que poderia estar na base de toda série histórica, sem contudo perder a sua especificidade “sociológica”: o surgimento da primeira casa, a aparição de uma rua ou de um bairro, o nascimento do burgo. Ao mesmo tempo trata-se do estabelecimento de constantes, de identificar o que é comum a todos os projetos, sem perder de vista diferenças essenciais: um ponto de vista, uma história pessoal, a impregnação afetiva de um signo.
Antes até mesmo de ser geometria, tudo em Lorenzato é ritmo, nem sempre pacíficos mas nem por isso destituídos de harmonias. Expor-se ao eterno meio-dia destas imagens, de cores claríssimas, é sentir na pele o sol que as alimenta. Nada de retóricas, falsos dilemas ou signos exauridos do fogo vital pelo temperamento esnobe. O que está em cena não é o significado cultural da pintura, mas um sentimento da pintura, surpresa ainda possível, que vem dos contrastes e por isso queima, arde, ilumina.

Walter Sebastião
Catálogo Exposição Lorenzato Pinturas, Itaúgaleria, Belo Horizonte, Fevereiro/Março,1991.