Depoimento - Amadeu Luciano Lorenzato

 

Como surgiu a idéia de utilizar o pente para pintar?


Eu era pintor, especialista em decoração com estambres marmorizados, fingimento de mármore e madeira; se fazia o fundo de óleo, depois as veias em amarelo, vermelho, preto, e depois com o pente a gente arrematava. Para fazer as veias das madeiras eu comprei uma coleção de pentes para decorador em Paris. Depois voltei para Belo Horizonte e já não usava mais esse negócio. Um dia tive a idéia, forrei um papelão e depois com o pente comecei a mexer e deu um troço qualquer. Isso foi mais ou menos há uns dez anos atrás. Assim eu então comecei. Eu tinha seis pentes, mas perdi os outros e ficou só um, que é esse aqui, que eu dividi no meio, porque era muito largo. Primeiro eu pinto, espalho a tinta de diversas cores, e depois com o pente eu vou fundindo. Uso o pincel para espalhar a tinta e o pente para fundir as cores.

Quais são os motivos que o senhor mais gosta de pintar?


Gosto muito de céu, árvores e estradas. Percorri muitos quilômetros a pé pelas estradas, toda a Toscana, a Áustria; as estradas não estavam asfaltadas e havia muitas árvores de fruta: cerejeiras, pereiras e macieiras.

O que é a arte para o senhor?


Bem, a arte para mim é um passatempo, é uma terapia que me ajuda a viver. Quando estou pintando, esqueço tudo. Até aconteceu algo inusitado outro dia: estávamos fazendo um churrasco aqui, eu comprei um quilo e meio de lingüiça e pus no fogo para fritar e fui fazer um trabalho lá em baixo, uma escultura, e esqueci de tudo. Quando senti o cheiro de queimado, corri e tinha virado carvão.

Qual é o estilo que o senhor pinta?


Eu nem sei que estilo que é. É pintura! Dizem que é primitivo, que é ingênua, que é surrealista, eu não sei... Eu pinto aquilo que vejo, que me interessa.

Texto extraído do depoimento do artista,
publicado no livro Lorenzato -
Circuito Atelier, Editora C/Arte,
Belo Horizonte, 2004. p. 31 a 34.
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