Artistas Populares de Belo Horizonte

Abordar um século de manifestações da arte popular em Belo Horizonte é um grande desafio. Nessa oportunidade apresentamos inúmeros artistas que atuaram e residiram na capital além da Avenida do Contorno. Selecionamos aqueles artistas dotados de uma contextualização sociológica absolutamente popular, desprovidos de poder econômico, com uma memória mais ou menos apoiada na cultura oral, duas ou mais atividades profissionais, de origem sertaneja, interiorana ou suburbana que não tiveram acesso à formação acadêmica, adquirindo um saber artístico por esforço absolutamente individual, destacando-se como autodidatas.

Distinguimos tais artistas daqueles que, provenientes da classe média e das elites, detendo um saber formalizado, abraçaram, por simpatia, a linguagem popular.

Aproveitamos essa grande mostra dos níveis de criatividade atingidos pelos artistas populares de BH para homenagear:

RAIMUNDO MACHADO AZEREDO (1894-1988), o criador do Presépio Pipiripau soube através de recursos modestos registrar, contextualizando, a memória das classes populares de Belo Horizonte. A partir de um motivo tradicionalmente devocional integrou harmoniosamente o mundo da natureza, a cultura local (os ofícios, o lazer e os ritos religiosos) e a modernidade em ascensão, expressada no aproveitamento pioneiro de materiais precários - papel machê, gesso, sucata, uso do movimento e efeitos especiais.

AMADEO LUCIANO LORENZATO (1900-1995), como pintor de paredes belorizontino, depositário da tradição obreira dos italianos, dominava as propriedades de múltiplos materiais (cimento, arame, gesso...). Nas andanças européias teve contato com obras de grandes mestres e pintores das vanguardas da época. No transcurso de sua carreira a linguagem pictórica tornou-se cada vez mais erudita, embora se conservasse fiel ao cotidiano da Cabana do Pai Tomaz .

JOSÉ VALENTIM ROSA (1911), escultor herdeiro de rica tradição rural/africana teve o maior destaque nas décadas de 70 e 80, quando recebeu prêmios representativos. Revelou em suas obras mais antigas uma visão de mundo cosmogônica conjugando animais, homens e plantas em uma única peça dotada de diversas faces e muitos vazados. Mais acostumado com a vida urbana e, ao mesmo tempo, desiludido (financeiramente pouco se beneficiou do sucesso artístico), abandonou os animais para se fixar em rostos profundamente compenetrados. Suas obras trabalham os estados da alma, sem decair em citação ou narrativa de sentimentos. Valentim vive a sua verdade através de uma aventura absolutamente pessoal, ainda que ancorada em heranças culturais.

Adalgisa Arantes Campos