Genealogia
de Elisângela
Isso
é fala recolhida que tem de ser botada para fora.
Dr. Caramujo
Poderia
começar com as roliças bonecas de Niki de Saint-Phalle
ou as perversas de Hans Bellmer. Mas Elisângela não
pertence a essa estirpe. Ela é, sem dúvida, prima
irmã da Emília feita por tia Nastácia,
muito feiosa, a pobre, com seus olhos de retrós preto
e as sobrancelhas tão lá em cima que é
como ver uma cara de bruxa.1 É também sobrinha
bisneta daquelas “bonecas inteiras” que Pedro Nava
imagina ao escutar, sem querer, uma conversa entre o Nestico
e o seu Álvaro. Eles falam das “bonecas inteiras”
ou “bonecas completas” - , feitas pelas velhas impuras
de São Luis do Maranhão. O rosto delas era bonito,
sussurram os compadres, o corpo imitava a graça das curvas
e a suave consistência da carne feminina. A boca, então...,
a boca se abria em delicados lábios, claros dentes, língua
acolchoada.
Tinham
seios e umbigo. Mãos, pés, dedos, unhas. Pelos
nos sovacos e pentelhos fornidos e crespos. Amplas nádegas,
altas e roliças coxas que, quando afastadas deixavam
ver o orifício anal, ninfas, clitóris e hóstio
vaginal. ... O corpo era todo trabalhado em pano fino de algodão.
Menos a boceta. Esta era sempre de cetim.2
As improváveis
bonecas do Maranhão se fixam na memória do futuro
médico, que não se atreve a perguntar o que queria
saber. Como encomendar as bonecas? Quais os fregueses que as
compravam? Adultos sem vergonha ou pais interessados na educação
dos seus filhos? Nunca o saberá, mas a lembrança
reprimida se impregnará de um profundo respeito por elas,
as que escondiam debaixo das saias e anáguas rendadas
uma sugestão de convivência e um convite à
partida.3
Elisângela - aparentada ainda com a bonequinha preta e
as bonecas mães maxacalis - descende dessa ilustre linhagem
brasileira. Como todas elas, nasce vazia. E nasci vazia... Nasci,
fui enchida de macela e fiquei no mundo feito uma boba, de olhos
parados como qualquer boneca...4, diz Emília, a única
que pode falar. Como todas elas, é um fetiche; a meio
caminho entre o brinquedo inocente e o objeto perverso. Habita,
não sem estranhamento, um mundo intersticial, um pequeno
espaço entre o real e o estereótipo que se inverte
constantemente. Como Elisângela é bem maior que
sua criadora, a relação mãe e filha transmuta-se,
e a pequena Juliana adormece no colo amplo e aconchegante da
boneca. A boneca freqüenta com Juliana - mãe, filha,
irmã, amiga, amante? - bares, seminários, palestras,
festas, shows. A boneca toma sol no gramado, ganha certificado
de participação nos eventos, anda de carro, lava
as pernas de pano, troca de roupa. O vazio do seu nascimento
nunca desaparece, porque o material do qual é enchida
é volátil e transparente. Pode se transformar
em qualquer coisa a qualquer momento.
A boneca, objeto por excelência dos surrealistas, atravessa
o espaço dos seres vivos e age como um dispositivo de
resistência contra a autoridade, como um instrumento de
investigação e reflexão sobre o corpo.
Elisângela, enorme criatura artificial, costurada com
delicadeza e humor, com sonhos e sarcasmos - promessa de maternidade,
de irmandade, de amor - recusa-se a persistir como metáfora
de certa condição feminina. Seus deslocamentos
pela cidade, nos impelem a entender as intervenções
urbanas de uma outra maneira. A existência de Elisângela
- sua insistência -desvela a capacidade dessas intervenções
para rasurar as relações cristalizadas, para propagar
os desejos represados e as falas recolhidas.
Maria
Angélica Melendi
2006
1LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. São
Paulo: Brasiliense, 1967. p.3
2 Nava, Pedro. Baú de Ossos. Memória 1. Rio de
Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1974. P.22
3Nava, Pedro. Baú de Ossos. Memória I. Rio de
Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1974. p.23
4LOBATO, Monteiro. Memórias da Emília. São
Paulo: Brasiliense, 1976.p.7.
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