A PAISAGEM MINEIRA CONTEMPORÂNEA

Marília Andrés Ribeiro

Apresentação

Propomos pensar a paisagem mineira a partir da ação do homem sobre a natureza, intervindo diretamente nas transformações da paisagem e interagindo simbolicamente através da criação artística.

Delimitamos o território: as montanhas, cidades coloniais, indústrias siderúrgicas, que definem o espaço das Minas Gerais; bem como a tradição erudita e popular que permeia o imaginário de seus habitantes.

Selecionamos os atores sociais presentes neste processo: os artistas e os críticos atuais. Objetivamos mostrar a intervenção desses atores na construção artística e crítica da paisagem mineira, focalizando o olhar contemporâneo sobre as transformações materiais, espaciais e culturais.

Marco Teórico

Nosso marco teórico é norteado pelas interpretações de Roger Chartier referente à questão da representação na história cultural e de Francisco Carlos Teixeira da Silva acerca das diversas abordagens da história das paisagens.

Na perspectiva da história cultural de Chartier (1) as representações, práticas e apropriações culturais, são formas simbólicas diferenciadas de interpretação que os diferentes grupos sociais elaboram deles mesmos. A representação, enquanto eixo de abordagem da história cultural, constrói-se a partir de práticas sociais concretas e diferenciadas e coloca em relevo a possibilidade de pluralidade de leituras. As imagens, textos, rituais e comportamentos são fontes preciosas para o estudo da história cultural.

A partir da abertura proposta pela nova história cultural, Teixeira da Silva (2) discute a história das paisagens enquanto produto da atividade humana, enfatizando a ação do homem sobre o meio ambiente ao longo do tempo. O estudioso questiona a distinção entre a paisagem natural e a paisagem cultural, como foi sustentada pela antiga história e aponta uma nova perspectiva, salientando as transformações sofridas pela paisagem enquanto resultado da interação do homem com a natureza. Trata-se de uma abordagem holística, uma visão de conjunto, uma síntese para além das histórias particulares, que considera o enlace de múltiplas variáveis, as transformações involuntárias e a longa duração no campo da ecologia humana.

Estas novas perspectivas teóricas nos direcionam para uma outra discussão da paisagem artística que leva em conta a intervenção do artista no meio ambiente, através da transformação da matéria local, da recriação de antigas práticas sociais e da apropriação da cultura popular. Esta nova abordagem se contrapõe à consideração da paisagem artística enquanto representação figurativa convencional, centrada na reprodução bidimensional de uma natureza externa e no relacionamento entre uma imagem presente e um objeto ausente.

Textos Críticos

A paisagem mineira tradicional, das cidades históricas, das montanhas de minas e dos campos gerais, tem sido um tema constante na produção de vários artistas, tornando-se um clichê representativo da arte produzida em Minas Gerais. Esta paisagem figurativa, revelada na pintura de artistas viajantes ou nativos da região, foi representada com vigor e criatividade por artistas como Guignard, Inimá, Nello Nuno, Maria Helena Andrés, Sara Ávila e Roberto Gil, mas aparece diluída nas mãos de artistas pouco criativos.

Os textos críticos sobre a paisagem mineira também apresentam visões diferentes sobre o tema. Discutiremos os textos críticos de Jacob Klintowitz e de Márcio Sampaio, mostrando duas abordagens distintas de interpretação da paisagem mineira.

Jacob Klintowitz (3), autor de um livro muito bem ilustrado sobre a paisagem mineira, apresenta o tema de uma forma tradicional, seguindo uma perspectiva romântica oitocentista, que ressalta a visão ufanista de um paraíso perdido, onde o homem está em contato com uma natureza externa e torna-se capaz de representá-la através da pintura artística. A paisagem é exaltada no sentido de revelar esta visão paradisíaca na obra de vários artistas modernos que trabalham com a pintura convencional.

Márcio Sampaio (4), autor do livro-catálogo de apresentação da excelente exposição sobre a paisagem mineira, realizada em 1977, apresenta uma abordagem histórica e crítica do tema. Retoma a origem da representação desta paisagem nos artistas coloniais, ressaltando a pintura de Ataíde; recoloca a paisagem mineira do século XIX, chamando a atenção para os registros de viagens de Rugendas e as representações românticas de Honório Esteves e Frederick Steckel; e salienta a nova visão da paisagem presente nas obras de Aníbal Mattos, Alberto Delpino, Renato de Lima e Genesco Murta. Sampaio discute com lucidez a construção da paisagem moderna mineira, referindo-se à redescoberta do barroco mineiro nos croquis de Tarsila do Amaral, realizados durante a visita da caravana paulista em Minas Gerais nos anos 20. Ressalta, ainda, a reconstrução da paisagem moderna de Minas, nos anos 40, presente no projeto da Pampulha, de autoria de Niemeyer, Burle Marx, Portinari e Ceschiatti. O autor não deixa de refletir sobre o diálogo intimista entre Guignard e a paisagem mineira e os desdobramentos desta paisagem nas obras dos ex-alunos de Guignard. Mostra, ainda, a importância da paisagem na fixação do desenho mineiro e na criatividade dos artistas populares. Sampaio conclui sua reflexão focalizando a emergência da consciência crítica da paisagem na obra dos artistas neovanguardistas que atuaram nos anos 60 e 70, tais como Lotus Lobo, Luciano Gusmão, Dilton Araújo, Manfredo de Souzanetto e Madu, entre outros. Estes artistas redescobriram outras maneiras de trabalhar a imagem de Minas, apropriando-se de rótulos de produtos industriais como foi feito por Lotus Lobo, ou interferindo conceitualmente na paisagem urbana através das propostas de Luciano Gusmão e do próprio Márcio Sampaio.

A reflexão de Sampaio nos abre uma nova perspectiva para pensar a paisagem mineira, a partir de um questionamento crítico e da postulação de uma outra maneira de apropriar-se do entorno, da matéria e do tema, interagindo diretamente em sua construção.

 

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