Rodelnégio: louvor ao primitivo

Se Villa-Lobos tivesse conhecido o pintor primitivo Rodelnégio Gonçalves, certamente não teria dito, o que o musicólogo Arnaldo José Senise chama de boutade. "O folclore brasileiro sou eu". Na verdade, poucos artistas podem se gabar de terem traduzido a musicalidade inebriante do esfuziante cerimonial folclórico afro-brasileiro de forma tão bela do que esse talentoso pintor Rodelnégio Gonçalves. Sua obra é um verdadeiro panteão folclórico das terras mineiras. O vibrante colorido que cobre suas telas é o de alegria de viver, é o heroísmo existencial da negritude, é um puro humanismo em sua forma mais humilde.

A pintura primitiva, de modo geral, conta com poucos pintores autênticos, Rodelnégio encontra-se nesse rol, e ocupa um lugar de destaque. A pintura primitiva, embora aparente ser coisa de fácil realização, na verdade, sua execução exige do pintor um alto grau de talento artístico para sua linguagem pictórica. Uma série de fatores impõe-lhe essa condição. O artista primitivo é autodidata, começa a pintar já na idade adulta, vive à margem das cogitações intelectuais que acompanham os demais estilos de pintura, desconhece as regras que ordenam a feitura de um quadro. Ai ele só conta com sua sensibilidade artística que busca sua objetivação, atendendo o impulso de sua intuição. Os falsos primitivos, paradoxialmente, são em geral, profissionais, conhecedores do métier, que mal disfarçam suas composições infantis artificiais, que não passam de erzats.

A pintura primitiva de Rodelnégio é autêntica, de difícil execução, e de alto teor artístico. Suas telas exprimem, pela forma e composição cromática, a inocência, a simplicidade, e, todavia, possui uma beleza de requinte, elevando-se a categoria de obra prima. Deve-se considerar que ele não frequentou nenhuma escola, ou atelier de pintura, e nem tampouco conviveu com artistas, a não ser por um pequeno lapso de tempo com Herculano Campos, que o estimulou a continuar pintando.
No entanto, não podemos considerá-lo um produto de geração espontânea. Pelo contrário, sua potencialidade artística inata encontrou seu elemento dinâmico no vínculo social inerente ao ato criativo. Foi no seu trabalho no Parque de Diversões, que continua dirigindo nos últimos 50 anos, que encontrou, já adulto, um campo apropriado para a objetivação de seus sonhos inundados de bondade beleza. É no Parque, onde prevalece a alegria de viver do povo, em sua forma espontânea, que detectou o sentido poético, tão bem transposto para suas telas. Ele insufla a sinceridade e doçura de sua imaginação ao pintar os congados, os candomblés, as celebrações de Iemanjás, de Orixás, as "peladas", e em todas as manifestações onde pulsa a emoção popular no sentido poético.
A pintura primitiva não se ensina na escola, ela é aprendida sem mestre. Ela se carateriza pela ausência de perspectiva (uma retomada da pintura pré-Renascência, em termos modernos), emprega de preferência cores vivas contrastantes e a minúcia de detalhes, onde todos os indivíduos de uma multidão são individualizados, a exemplo do quadro "Festa no Rio São Franscisco", que lhe valeu o primeiro prêmio [no Salão Nacional de Montes Claros]. Os personagens apresentados de frente tem uma expressão parada, e nota-se traços de acanhamento. Para esse tipo de pintura a macetinha não funciona, a estrutura pictórica tem de ser genuína.
Essas "falhas técncias" o pintor primitivo preenche com a sensibilidade artística, único elemento com que conta. A ordenação estrutural do quadro solicita a presença de uma acuidade de alta potencialidade artística. É justamente essas qualidades que Rodelnégio exibe em seus quadros, o que lhe outorga o título de mestre em pintura primitiva.

Não seria fora de propósito, ao ensejo de mais um artista mineiro ter ganho o primeiro prêmio num Salão Nacional, de reafirmar que Minas Gerais tem um grupo de artistas plásticos de maior categoria, fato não divulgado devidamente. Os pintores mineiros não emigram, por isso estão à margem do eixo Rio-São Paulo, ao redor do qual gira a vida artística nacional. Torna-se imperiosa divulgar a pintura mineira e fazer de Belo Horizonte o terceiro pólo artístico do País como realmente merece. Cabe à Secretaria de Cultura empreender essa tarefa. Não se deve promover a pintura de um determinado pintor, mas divulgar a pintura como um todo. Certamente essa tarefa faz parte da raison d'être da própria Secretaria de Cultura.

Isaias Golgher. Rodelnégio: louvor ao primitivo.
Estado de Minas, Belo Horizonte, Segunda Seção, 4 outubro, 1988.