Rodelnégio - Depoimento

"Gosto do cotidiano, pintar coisas que já vi ou que vejo diariamente. Uma das coisas que ficaram em minha memória foram as peladas que, ainda menino, jogávamos na praça Rui Barbosa, em Alegre. Toda a meninada reunia-se na praça para jogar horas e horas sem parar. Fiz vários trabalhos cujo tema foram essas peladas. As manifestações folclóricas de Alegre também estão presentes em minhas pinturas. O Caxambu, que era uma dança muito difundida na cidade, foi tema de um trabalho que participou do Salão de Arte da Prefeitura.

Com o parque de diversões visitei muitas cidades do interior do Brasil; nessas andanças conheci o dia-a-dia das pessoas, costumes, festas e tradições que hoje habitam minhas pinturas. Não conhecia nada sobre folclore, mas via as festas religiosas e o carnaval.

Viajando com o parque deparava-me sempre com novas paisagens, gente diferente, costumes diferentes e comecei a observar essas coisas. Cada região tem um costume: na Bahia, por exemplo, é um mês inteiro de festas. A festa do Senhor do Bonfim, as feiras, as barracas, as comidas... Enfim, o artista, observando essas manifestações, adquire conhecimentos que depois pode utilizar na hora de produzir um trabalho.

Quando pinto, recupero muitas cenas que já aconteceram e que de alguma forma impressionaram-me, ficaram guardadas na memória. Por exemplo, uma vez chegamos numa cidade onde havia chovido muito; após a grande chuva formaram-se poções de água que foram cercados para que as pessoas não entrassem. Quando veio a seca esses poções viravam a única fonte de água da cidade e vi uma pessoa abaixada no fundo do poço pegando o resto da água que o sol forte ainda não tinha levado. Mais tarde pintei essa cena.

Existe também uma cena que vi nas margens do rio São Francisco e há anos espero para fazer um trabalho. Nós estávamos em Juazeiro e na cidade tem o cais do porto, o navio encosta e descarrega no cais. Eu estava observando o descarregamento quando vi a meninada reunida, pensei: tem alguma coisa acontecendo ali. Fui observar mais de perto e percebi que as crianças estavam formando uma parede ao redor de uma pilha de sacos de farinha de mandioca. Um dos meninos saiu com um canivete e cortou o saco, e, um a um, revezavam-se para encher os bolsos com a farinha. Eles estavam roubando a farinha do carregamento. Estou com essa cena há anos na memória e agora vou pintar, fazer o porto, o navio e os moleques roubando a farinha.

O rio São Francisco é muito importante, toda a população ribeirinha vai até a margem para ver quando o vapor passa. As pessoas que viajam no vapor reúnem-se toda tarde para contar histórias. Acho que como pintor é importante registrar esses fatos.

No Norte o que impressiona é a miséria, o Brasil é assim, tem uma região que é riquíssima e outra paupérrima. No Norte as pessoas compram uma jaca, sentam-se e cada uma tira um favo da jaca, põe na boca com um monte de farinha de mandioca, come e depois cospe o carroço. Todo mundo faz isso, eu ficava olhando e achava aquilo muito impressionante, ver todas aquelas pessoas comendo jaca com farinha. Já pintei uma roda de jaca."

Rodelnégio: depoimento. Coleção Circuito Atelier.
Belo Horizonte: C/ Arte, 2002, p. 23 e 24.

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