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"... antes de ser um cavalo de batalha, uma mulher nua ou qualquer anedota, um quadro é essencialmente uma superfície plana recoberta de cores concertadas numa certa ordem."
A atual produção artística de Sara Ávila parece não consentir com uma interpretação anacrônica que, pondo em relevo o puro ENCANTO ESTÉTICO de sua obra, a redimisse do QUABRANTO dispersivo com que de início nos aliciam seus referentes semi-figurativos e o código de seus símbolos. Na verdade, Sara sempre esteve para além do figurativo – e é pouco dizer que "a referência direta ao real terminou substituída por uma quase-abstração." Na verdade, "a rigorosa codificação sígnica de substância surreal", assinalada com acerto por Walter Zanini para indicar a matéria e os elementos que estruturam sua poética, não revela senão uma franja reduzida da essencialidade de sua obra: Sara sempre esteve para além do surrealismo (ortodoxo). Ou ao menos do que, como intrusão derrisória e crítica, o surrealismo representou na história da criatividade, tentando romper a linha contínua da intenção da arte: "Engendrar na Beleza".
Visando sempre a um desígno primacialmente estético – independente das peias canônicas das escolas e estilos da moda – a artista soube, e continuadamente mostrou saber, que a ESTESIA é primeiro uma graça a ser merecida com a disciplina dos sentidos e a ascese do espírito, que prepara o silêncio para as percepções mais fundas, as visões para as intuições mais íntimas e os artifícios para os lanços operacionais mais expressivos. Como espectadores, numa consideração sempre a posteriori e algo mentirosa, somos tentados a vincar excessivamente as arestas que separam os níveis perceptivo, intuitivo e operatório. No concreto, os três planos se intercomunicam num enredo em que se prestam recíproco apoio.
Assim, o sentimento de honra, decoro, que colhemos da epifania consumada da obra de Sara Ávila, procede de sua nobreza artística – de sua areté – onde a inventividade de seu artefazer, diluindo (ou concentrando) as formas com coloridos fluidos (ou densos), soube liqüefazer (ou petrificar) os volumes vários exigidos pela figuração, conservando ou consagrando-lhes um sentido de plasticidade (ou de labilidade), a fim de ir ao encontro das sutilezas de sua intuição estética fundamental:
o mundo só logra sentido de beleza quando minha
Sara Ávila, com o seu mero "ver", honra assim o mundo. E tudo dele se transmuta em "paisagem histórica". Mítica e misteriosa paisagem que tanto se externaliza pelo que segreda, quanto muito esconde pelo que revela. No perfil amorfo do sem-nome, no irreconhecível rosto de certas formas, na sugestão de infra ou supra-realidades (hieráticas ou profanas), nas ambigüidades consentidas ou procuradas, nas figurações truncadas de referentes precisos – em tudo eu vejo o fluir infatigável e o lento adejo das asas do tempo. Tempo da natureza, "história natural", dizem as formas orgânicas consagradas em seu viço espontâneo, recurvas em torturada assimetria, resumando sua linfa de líquida vida, e também as formações minerais com seus incógnitos gestos e residuais silêncios. Tempo humano, "história" propriamente dita, onde os avatares de chronos são determinadas por um gesto livre: seria esse o sentido simbólico da determinação segura e medida do desenho de Sara. Já a semitrasnparência dos sépias de sua pintura, pela introdução proposital da ambigüidade, detém acaso outra semiologia: a de significar a transitoriedade da vida e a nossa própria condição transiente no seio da História. Por vezes há recorrência à ucronia, à utopia, ao onírico, às brumas do inconsciente, às ruínas do pretérito. Mas tudo isso é matéria a ser domada e, pela arte, reincorporada ao fluxo da vida que jamais desiste.
Sabemos que, incrementando diafaneidade de seus tons com o jogo do claro-escuro, Sara aprestou-se desde cedo para tornar rediviva a ambiência espiritual do Barroco. E estamos cientes também de que, com a remissão testemunhal do passado, sua estética retém e consagra sementes de vida em direta conexão com o nosso presente.
Só quem antes honrou o passado tem o direito de falar ao futuro. Mesmo pela "capacidad de ensueño" e mais pela capacidade de assumí-la simbolicamente como recurso estético, menos pelos seus referentes surrealistas e mais pelo seu engenho de assumí-los em sua poética como chaves para desvendar a realidade histórica do homem, Sara Ávila tem garantido seu destaque entre os artistas que, de um lado, integram a tradição estética da Arte e que, de outro lado, são atentos aos novos intentos da criatividade contemporânea.
Moacyr Laterza |