REFLEXÕES SOBRE A LINGUAGEM ARTÍSTICA

Walter Sebastião

Uma atitude: autores que já têm um percurso realizado, fazendo mostras com obras produzidas num largo período de tempo, visando recuperar uma visão mais ampla de seu trabalho, e mesmo fios que ligam as diferentes proposições. Mostrando a pertinência desta iniciativa, viu-se, este ano, a bela exposição de Paulo Henrique Amaral e, no momento, a exposição, com 117 trabalhos (1980-1995), de Sérgio Nunes. Em cena está um autor singular, cuja preocupação – hoje e ontem – sempre foi uma guerra no sentido de restituir, ao ato de produzir, imagens não só de expressividade mas de uma experiência de conhecimento.
Metade das obras apresentadas foram realizadas entre 1980 e 1992; a segunda parte entre 1993 e 1995. “Não é uma retrospectiva, é um apanhado do trabalho”, vai logo avisando Sérgio Nunes, lembrando o grande número de obras inéditas e a organização por linguagem e não em ordem cronológica. São, segundo o autor, desenhos, anotações caligráficas, objetos, aquarelas e pinturas. Nesta última, a parte mais recente, está um pouco de todo o percurso, cuja mais recente formulação é “uma reflexão sobre a natureza da linguagem plástica e da realidade”.
A pintura, para o artista, “não se limita à sensação, é reflexão, meditação” e até mesmo “ação direta, com capacidade de atingir o que se chamaria de plenitude”. Ele recusa a palavra iluminação para caracterizar esta experiência. Troca a palavra por “satori”, um termo do zen budismo que significa “sacudidela mental e da estrutura convencional”. A convicção neste princípio é motivo para críticas ao populismo estético: “Hoje, qualquer pessoa se vê no direito de dar palpites sobre o que a arte deve ser. Ninguém faz o mesmo com a Física”, afirma, relembrando um argumento de Marcel Duchamp, na sua opinião “o Leonardo da Vinci do século XX”.
As afirmações servem para bombardear, também e respectivamente, as idéias de que arte significa prazer e a identificação com o gosto pessoal. Sérgio Nunes descarta as duas, reafirmando que “arte é sempre reflexão sobre temas específicos da arte” e “deslocamento de estruturas”. Relembra que, neste sentido, a obra de Marcel Duchamp é fundamental, já que mostra que “ arte e gosto são coisas inconciliáveis”. Os problemas relativos à incompreensão destes temas se devem, segundo o artista, à falta de preparo, de educação, de informação, tanto dos artistas quanto do público.
Seguindo a linha mestra de seu raciocínio, Sérgio Nunes destaca sua admiração pelas obras artísticas realizadas na primeira metade do século XX, pela soma das “questões da poesia e do conhecimento”, colocadas de uma forma inigualável. Da produção contemporânea destaca Cy Twombly, por estar além da dicotomia abstração/figuração, pelas imagens de grande força que “puxam o observador para as questões da vida, da filosofia, da poesia, do tempo e da morte”. O desafio colocado para os artistas hoje: “Uma conjunção do tonal e do atonal, seja do jeito que for, mas com qualidade estética”.


Algumas opiniões de Sérgio Nunes

Pintura – “A pintura é reflexão, uma forma de meditação. Reflexão nem sempre significa verbo, raciocínio. Existem formas de se atingir o que se chamaria de plenitude através de uma ação direta, que está além do pensamento. “Satori”, do Zen, do qual a palavra iluminação é má tradução, é uma espécie de sacudidela mental, de sacudidela na estrutura convencional. Imaginar é uma coisa de choque. Um quadro que não choque, no sentido mais sublime, não vale a pena.”

Arte – “A arte deveria retomar uma direção mais esotérica – o oculto, o escondido, o segredo, o que não pode ser dito com palavras. O exoterismo (conhecimento transmitido publicamente) da pintura do século XX é muito perigoso. Arte não tem nada a ver com gosto, não é uma coisa do prazer, é reflexão sempre. Isto não quer dizer que seja para uma casta, que seja uma torre de marfim, mas sim experiência de um conhecimento profundo, o mais intensamente poética, linguagem de precisão absoluta.”

Imagem – “Observar profundamente como um artista constrói uma imagem é uma coisa que pode alterar a vida. Você vê algo único e totalmente original, fora do tempo e com um tempo próprio. Você percebe então a inteligência daquela obra. São coisas que falam profundamente a respeito da vida (...). Existe um pensamento na imagem, à medida em que tudo que é colocado ali é escolhido e a escolha significa reflexão.

Século XX – “O século XX é forte pela unidade, no sentido de coesão crítica e histórica, mas perdeu muito pela futilidade. Gerou-se uma instituição chamada “mundo da arte” que é contra a arte. O artista, hoje, deve se proteger do “mundo da arte”. Senão, por mais que pense estar sendo original e contemporâneo, não está fazendo mais do que repetir coisas já feitas.”

Marcel Duchamp – “É o artista responsável por fazer a arte retomar a direção da qual nunca deveria ter se desviado: o esoterismo. Ele mostrou que arte e gosto são coisas inconciliáveis. Produziu a poesia do conhecimento, uma poesia que se desprende do conhecimento. É um Leonardo da Vinci do século XX.”

Jornal ESTADO DE MINAS
Segunda Seção - página 8
Quinta-feira, 2 de novembro de 1995.