Depoimento

Entrevista com Sérgio Nunes
por Olívio Tavares de Araújo
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Para você, fazer uma obra abstrata ou uma figurativa responde à mesma necessidade?
Não. Responde a necessidades diferentes porque a figuração e a abstração são de naturezas diferentes, ou seja, cada uma delas tem o seu próprio caráter formal. No entanto, diz-se que toda obra figurativa é, essencialmente, abstrata, e isso é, de certa maneira, verdade. Estou me referindo às questões de estrutura, composição, equilíbrio, ritmo, harmonia, movimento, gesto e cor, que, em sentido geral, são as mais importantes, por exemplo, em uma pintura – por mais que mudem ao longo do tempo. Todo pintor deve estar atento a estas questões, que são exatamente as mesmas na figuração e na abstração, embora possam ser desenvolvidas de forma diferente em cada uma dessas modalidades. Na figuração há as questões pertinentes à própria elaboração daquilo que se chama figura, envolvendo nisso todos os seus aspectos e detalhes. O próprio tratamento das matérias é, obrigatoriamente, diferente. E na abstração há que haver um procedimento na feitura do trabalho que produza força suficiente para que aquilo seja uma obra. Na minha pintura, no entanto, me propus trabalhar como em um grande muro branco. Um espaço plano, aberto, e, por assim dizer, múltiplo, ou receptivo. Então, nesse espaço faço uma figura, mas também faço uma mancha – que seria abstrata, ou seja, que não é feita em função da construção de algo figurativo –, ou faço linhas que não representam nada – e que, portanto, têm, também, um caráter abstrato –, escrevo, pinto ou colo signos, símbolos, objetos etc. – claro que sempre considerando as questões plásticas e buscando uma coerência, uma unidade.
Em que o momento da criação se distingue dos outros, na vida?
Prefiro dizer "o momento do fazer" – não gosto muito da palavra criação. Ele se distingue dos outros momentos principalmente pelo grau de atenção que exige. Devemos estar absolutamente atentos quando trabalhamos. Na verdade deveríamos manter esse nível de atenção o tempo todo na vida, e então seríamos felizes. Mas não é fácil. Por quê? Por causa daquilo a que me referi na resposta anterior: a mente – que envolve o ego. Esta é a questão. Para fazer algo, o artista deve se separar da mente. Deve dissolver o ego – o que significa dissolver os condicionamentos. Deve saber discernir o que é ele mesmo – sua alma – e o que é a mente. Deve parar de pensar, parar de ser dominado pela mente com todas as suas armadilhas. Quando o pensamento não está interferindo, há meditação e há verdadeira percepção, ou seja, há percepção direta. E então, através da observação atenta, ele pode chegar àquele estado de espírito que na alquimia se chama Mercúrio e que é a coisa mais maravilhosa que existe.
Como ser humano e/ou artista: o que é que te faz mais falta – bem lá no fundo de sua noite?
Essa pergunta está buscando uma resposta óbvia, ou evidente. O que é mais importante para qualquer ser humano "bem lá no fundo de sua noite"? Um grande amor – é a resposta. E como artista o que te faz falta? Pessoalmente, eu diria que nada me faz falta. Tenho tido uma vida maravilhosa e tenho sido muito feliz. E, paralelamente, posso dizer que tenho tido sorte. Nunca abri uma concessão. Faço em arte precisa e exclusivamente o que quero fazer. De forma que me sinto muito bem. Mas, mudando um pouco de assunto, há uma coisa maravilhosa que pode acontecer bem lá no fundo da noite... Esta coisa é você acordar enquanto continua dormindo e perceber a realidade paralela, o que aponta para a possibilidade de desenvolvimento de uma visão na qual o que há por detrás da consciência e do pensamento pode se tornar tão claro e perceptível como as coisas exteriores o são para os olhos e para a mente ligada ao corpo.

Texto extraído do depoimento do artista, publicado no livro Sérgio Nunes
Circuito Atelier, Belo Horizonte, Editora C/Arte, 2005, p. 18, 29 e 32.
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[1] Entrevista realizada em julho de 2005.