Depoimento
Entrevista com Sérgio Nunes
por Olívio Tavares de Araújo[1]
Para você, fazer uma obra abstrata
ou uma figurativa responde à mesma necessidade?
Não. Responde a necessidades diferentes porque a figuração
e a abstração são de naturezas diferentes, ou
seja, cada uma delas tem o seu próprio caráter formal.
No entanto, diz-se que toda obra figurativa é, essencialmente,
abstrata, e isso é, de certa maneira, verdade. Estou me referindo
às questões de estrutura, composição,
equilíbrio, ritmo, harmonia, movimento, gesto e cor, que, em
sentido geral, são as mais importantes, por exemplo, em uma
pintura – por mais que mudem ao longo do tempo. Todo pintor
deve estar atento a estas questões, que são exatamente
as mesmas na figuração e na abstração,
embora possam ser desenvolvidas de forma diferente em cada uma dessas
modalidades. Na figuração há as questões
pertinentes à própria elaboração daquilo
que se chama figura, envolvendo nisso todos os seus aspectos e detalhes.
O próprio tratamento das matérias é, obrigatoriamente,
diferente. E na abstração há que haver um procedimento
na feitura do trabalho que produza força suficiente para que
aquilo seja uma obra. Na minha pintura, no entanto, me propus trabalhar
como em um grande muro branco. Um espaço plano, aberto, e,
por assim dizer, múltiplo, ou receptivo. Então, nesse
espaço faço uma figura, mas também faço
uma mancha – que seria abstrata, ou seja, que não é
feita em função da construção de algo
figurativo –, ou faço linhas que não representam
nada – e que, portanto, têm, também, um caráter
abstrato –, escrevo, pinto ou colo signos, símbolos,
objetos etc. – claro que sempre considerando as questões
plásticas e buscando uma coerência, uma unidade.
Em que o momento da criação se distingue dos
outros, na vida?
Prefiro dizer "o momento do fazer" – não gosto
muito da palavra criação. Ele se distingue dos outros
momentos principalmente pelo grau de atenção que exige.
Devemos estar absolutamente atentos quando trabalhamos. Na verdade
deveríamos manter esse nível de atenção
o tempo todo na vida, e então seríamos felizes. Mas
não é fácil. Por quê? Por causa daquilo
a que me referi na resposta anterior: a mente – que envolve
o ego. Esta é a questão. Para fazer algo, o artista
deve se separar da mente. Deve dissolver o ego – o que significa
dissolver os condicionamentos. Deve saber discernir o que é
ele mesmo – sua alma – e o que é a mente. Deve
parar de pensar, parar de ser dominado pela mente com todas as suas
armadilhas. Quando o pensamento não está interferindo,
há meditação e há verdadeira percepção,
ou seja, há percepção direta. E então,
através da observação atenta, ele pode chegar
àquele estado de espírito que na alquimia se chama Mercúrio
e que é a coisa mais maravilhosa que existe.
Como ser humano e/ou artista: o que é que te faz mais
falta – bem lá no fundo de sua noite?
Essa pergunta está buscando uma resposta óbvia, ou evidente.
O que é mais importante para qualquer ser humano "bem
lá no fundo de sua noite"? Um grande amor – é
a resposta. E como artista o que te faz falta? Pessoalmente, eu diria
que nada me faz falta. Tenho tido uma vida maravilhosa e tenho sido
muito feliz. E, paralelamente, posso dizer que tenho tido sorte. Nunca
abri uma concessão. Faço em arte precisa e exclusivamente
o que quero fazer. De forma que me sinto muito bem. Mas, mudando um
pouco de assunto, há uma coisa maravilhosa que pode acontecer
bem lá no fundo da noite... Esta coisa é você
acordar enquanto continua dormindo e perceber a realidade paralela,
o que aponta para a possibilidade de desenvolvimento de uma visão
na qual o que há por detrás da consciência e do
pensamento pode se tornar tão claro e perceptível como
as coisas exteriores o são para os olhos e para a mente ligada
ao corpo.
Texto extraído do depoimento
do artista, publicado no livro Sérgio Nunes
Circuito Atelier, Belo Horizonte, Editora C/Arte, 2005, p. 18, 29
e 32.
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LIVRO.
[1]
Entrevista realizada em julho de 2005.